quarta-feira, 12 de março de 2014

Calçada à Portuguesa – Mito e realidade

 

Muito se tem debatido, ao longo dos últimos dias, em torno de uma polémica substituição que um movimento de perigosos radicais, constituído maioritariamente por pessoas com mobilidade reduzida, estariam a realizar, no sentido de “acabar” com a Calçada à Portuguesa nos passeios de Lisboa. Qual de nós ainda não se deparou por estes dias, ao abrir um site noticioso ou nos próprios destaques dos telejornais, com tiradas espetaculares gritando aos sete ventos o perigo iminente que este nosso nobre e tradicional pavimento corre, ele que é responsável pela fantástica luz que inunda Lisboa, uma vez que o querem substituir por umas quaisquer lajetas de gosto, no mínimo, muito duvidoso.
Para clarificarmos desde já aqui posições, assumo incondicionalmente, que integro convictamente esse tal “movimento de radicais”, que questionam a necessidade de ter os passeios de Lisboa integralmente cobertos de pedrinhas. Agora o que não subscrevo, nem eu nem os que me acompanham nesta luta de anos, que pretendamos acabar com a calçada à portuguesa, a verdadeira Calçada à Portuguesa.Tenho deficiência visual, 32 anos e a minha cegueira é congénita, acompanhando-me desde os meus primeiros passos. Por isso, a sensação permanente de perigo, de inclinação, de pavimento escorregadio, com pequenas pedras que me rolam debaixo dos pés e de permanente aproximação a covas sem pavimento, acompanha-me desde sempre. Ainda assim reitero que ainda hoje não me consegui habituar a esta permanente sensação de desconforto e angústia. E de cada vez que me desloco a uma qualquer capital europeia para além fronteiras, e consigo, uma vez mais, sentir a segurança firme sob os meus pés, volto a questionar-me com redobrada força, porquê?!
A calçada à portuguesa é bela e é segura, quando bem feita. Para ser bem feita, por profissionais verdadeiramente qualificados, com anos de experiência, os quais infelizmente também já vão escasseando na nossa cidade, torna-se cara. Por isso mesmo há que conseguir fazer uma distinção básica: a calçada à portuguesa que tem verdadeiro valor patrimonial, histórico e arquitectónico, e aquela calçada à portuguesa, de terceira ou quarta categoria, mal feita e mal acabada, que cobre a quase totalidade dos passeios dos bairros da cidade, sejam eles simples áreas comerciais, de escritórios ou bairros residenciais.
Para quem não saiba, aqui ficam os números: um metro de calçada à portuguesa bem feita, bem aplicada, trabalhada, tem um custo de aplicação de cerca de quarenta euros. Esta é a verdadeira calçada à portuguesa,sólida, permeável e que garantidamente, dura décadas. Temos depois a grande maioria da calçada de Lisboa, a qual é mais barata, atingindo valores aproximados de vinte euros o metro quadrado, mal feita, com pedra sem qualidade, a qual, feita no intuito de que dure o maior tempo possível, acaba por ser impermeabilizada, para que possa resistir, designadamente, aos frequentes assaltos dos automobilistas lisboetas, que acham que um passeio é sempre uma excelente opção para aparcar.
Ora, o que defendo, em nome de todas as pessoas com mobilidade condicionada, sejam elas pessoas com deficiência, idosos, pais com carrinhos de bebé, trabalhadores, etc, é que se invista o dinheiro que existe, em fazer boa manutenção da verdadeira calçada à portuguesa, nas zonas históricas e turísticas da cidade e que, por outro lado,se trate de começar a poupar dinheiro e a investir nas condições de segurança dos peões que transitam na restante cidade, onde prolifera a calçada de má qualidade, repleta de buracos e pedras soltas, substituindo-a por pavimentos lisos, suaves, amigos do peão.
E por fim, aqui fica um desafio aos grandes estetas da nossa cidade: antes de virem para a rua advogar causas em que na realidade são mais alheios do que próprios, tenham a humilde capacidade de se porem no lugar do outro. Vendem os olhos, peguem numa bengala e venham para a rua fazer 50 metros de percursos. Ou então, sentem-se numa cadeira de rodas e procurem fazer o mesmo percurso. Verão que adquirem uma perspetiva bastante diversa desta questão. Se, no entanto, não aceitarem este meu desafio, resta-vos apenas aguardar. Aguardar mais alguns anos até que o processo natural de envelhecimento contribua para que também venham a ser idosos nesta cidade e, portanto, pessoas com mobilidade reduzida, pois aí talvez um dia se consigam recordar destas simples linhas que agora aqui escrevo.


Por Ana Sofia Antunes
Presidente da Direção Nacional da ACAPO


Artigo publicado na 6ª edição da Revista Plural&Singular (http://www.pluralesingular.pt)

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