segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Orientação e Mobilidade: uma “profissão” com futuro?

Homem cego, com bengala, atravessa uma rua cheia de carros.

imagem: Como se atravessa a rua sem ver?

Todos nós conhecemos alguém que tem um péssimo sentido de orientação ou que não sabe seguir as indicações mais simples, mas que é sempre encarado como uma exceção. Afinal, partimos do princípio que todas as crianças vão crescer e chegará o dia em que irão sozinhas para a escola ou que um adulto pode chegar ao emprego, ao supermercado ou ao ginásio sozinho. Ou seja, a capacidade de ir de “A” a “B” é vista como algo que aprendemos naturalmente e sem aulas formais. Vamos aprendendo por tentativa e erro, ao longo do tempo e pela observação. Pelo menos é assim quando temos boa visão que nos permite observar outras pessoas e identificar ruas, edifícios e portas que nos informam onde estamos. Quando temos uma deficiência visual (D.V.) podemos precisar de aulas formais para desenvolver ou recuperar esta competência.

É natural que os pais de uma criança com D.V. tenham dúvidas sobre como o seu filho pode circular sozinho quando existem tantas barreiras e perigos. E é natural que um adulto que sempre reconheceu onde estava através da visão, não conheça a sua cidade através dos outros sentidos. Com o apoio de um técnico de orientação e mobilidade (O.M.) a criança pode adquirir esta competência e ir ganhando independência ao mesmo ritmo que os seus pares normovisuais. Por sua parte, um adulto que perdeu a visão pode recuperar a sua independência, deslocando-se na cidade sozinho, e continuar a ser visto como um familiar, colega ou amigo capaz.

Neste processo o técnico de O.M. é um facilitador: alguém que percebe como se desloca vendo pouco ou nada. Um técnico sabe como tirar proveito da informação disponível através dos outros sentidos e como criar um mapa mental dos locais em que a pessoa reside, estuda, trabalha e se diverte. Compete ao técnico ajudar o cliente a adquirir ou a aperfeiçoar os seus conhecimentos neste campo. Uma componente do trabalho é verificar que o cliente presta atenção à informação à sua volta e interpreta a mesma, distinguindo entre uma rua e outra pelos cheiros, o sentido do trânsito e o tipo de passeio. Outra componente é ajudar o cliente e os seus familiares a ultrapassar os receios. Os familiares não se limitam aos pais dos clientes mais novos, mas também incluem os parceiros e os filhos dos mais velhos, que colocam perguntas tais como, “Como é que o meu pai vai atravessar a avenida sem ver?”. Por vezes o técnico é a única pessoa no processo que acredita que o seu cliente se vai tornar independente ou recuperar a independência.

Quando somos novos aprendemos muito sobre o mundo pela observação, tal como a diferença entre um candeeiro e um semáforo ou a natureza de uma rotunda. Esta aprendizagem é feita pela observação no carrinho de bebé e ou no banco de trás do automóvel. Algo que uma criança com D.V. dificilmente faz. Os pais desta já respondem a muitas perguntas descabidas do público e é compreensível que não parem para mostrar objetos na rua aos filhos. Poucas pessoas têm paciência para enfrentar os olhares e comentários de estranhos quando incentivam o filho a apalpar pilaretes e papeleiras. Consequentemente haverá lacunas no conhecimento da criança com D.V. e compete ao técnico de O.M. ajudar a preencher as mesmas enquanto mostra aos pais e aos educadores e professores da criança o seu papel neste processo.

No caso de um cliente adulto tais lacunas não existem e até ao momento da perda da visão, possivelmente, deslocava-se de A até B com facilidade, muitas vezes sem pensar no assunto. E desde que adquiriu a sua D.V. provavelmente encontrou algumas estratégias para continuar a movimentar-se. Compete ao técnico facilitar a aprendizagem de outras estratégias e mostrar que uma pessoa com D.V. pode ir sozinha a sítios novos com confiança e em segurança. É de salientar que “sozinha” não significa circular sem interagir com ninguém – é perfeitamente aceitável pedir informações a terceiros ou ter ajuda para atravessar ruas movimentadas.

No seu trabalho o técnico deve ter sempre presente a noção que O.M. não é uma disciplina mas uma competência. Uma competência é algo que aprendemos com prática e muitas vezes ignoramos os ensinamentos dos instrutores. Podemos alertar várias vezes uma criança a ter cuidado com os dedos quando bate num prego com um martelo, mas normalmente a aprendizagem envolve lágrimas. Com muita prática a tarefa torna-se automática e podemos bater em pregos e conversar ao mesmo tempo. Por isso, o papel do técnico é estar presente enquanto a pessoa com D.V. pratica as técnicas e estratégias de O.M. e aprende por si só.

Então, o trabalho do técnico de O.M. é assim tão simples: fica a olhar enquanto outros aprendem? Em parte, a resposta é sim porque o técnico vai gastar mais tempo a observar do que a falar e vai pedir ao cliente para avaliar o seu próprio desempenho antes de dar uma opinião. Pode nem sequer chegar a dar uma opinião: simplesmente concordar e propor que se repita o exercício. A arte de ensinar O.M. é transmitir a ideia que é fácil deslocar-se num mundo com pouca ou nenhuma visão: o cliente não deve sentir que está numa aula. Esta abordagem é importante com crianças porque estas têm de aprender a ganhar responsabilidade pelas suas deslocações: têm de perceber que vão usar os novos conhecimentos fora das aulas, no seu dia-a-dia. E é importante que o cliente adulto não sinta que voltou à escola ou à estaca zero e fazê-lo acreditar nas suas capacidades. Acima de tudo, o papel do técnico é garantir que o cliente sente que está a aprender e que vai atingir os seus objetivos.

Embora seja um facilitador, um técnico de O.M., ao longo da formação, vai aumentando o grau de exigência e o cliente terá de cumprir rigorosamente as regras de segurança se quer receber um aval positivo do técnico. E quando este trabalha com crianças, por vezes será o adulto mais exigente que a criança alguma vez conheceu. Eventualmente será a primeira pessoa a dizer “mostra-me o caminho” em vez de “segura na minha mão”. A primeira que vai deixar a criança virar para o lado errado e esperar para ver como reage quando se perde. Mas ao mesmo tempo o técnico terá de ser um dos professores preferidos do aluno porque a criança tem de gostar das aulas e aplicar os conhecimentos no dia-a-dia. Neste campo um técnico de O.M. tem algumas vantagens: está disposto a investir tempo em explicar como o mundo funciona; acredita nas capacidades do aluno; ajuda-o a crescer e fazer as coisas que os seus colegas com visão fazem. E pode ser uma das poucas pessoas que falam com a criança sobre a sua imagem, como os seus comportamentos e linguagem corporal podem ser interpretados pelos colegas, professores e público em geral. Por exemplo, é aceitável tocar no cabelo da tia para conhecê-la melhor, mas não no cabelo do passageiro à sua frente no autocarro. Se andas com as costas direitas e a cabeça erguida e demonstras uma boa técnica de bengala, o público vai pensar que sabes o que estás a fazer e não vão incomodar-te com muitas ofertas de ajuda desnecessárias.

Além de facilitador, um técnico de O.M. é um prestador de serviços. Os seus clientes pretendem um serviço personalizado e normalmente terão ideias próprias sobre aquilo que querem aprender. O técnico apenas tem de seguir a velha máxima “O cliente tem razão”, incluindo a segunda parte que apenas o dono da loja ou restaurante recorda “até certo limite”. Ocasionalmente um técnico terá de arranjar maneira de dizer que os objetivos do cliente são demasiado ambiciosos ou a sua técnica de bengala é um perigo para os outros.

Esta designação pode ajudar o técnico a perceber que é o cliente que define os objetivos. Não existe um programa que todos têm de cumprir. Umas pessoas precisarão de conhecer a rede de metro de Lisboa e outras onde para a única camioneta que passa na aldeia, umas querem aprender a usar os novos sinais sonoros nas passadeiras e outras terão de andar em ruas sem passeios. Tal como em qualquer área, quando o prestador ganha experiência torna-se mais fácil encontrar soluções para um grande leque de pedidos. Esta experiência pode ser uma fonte de motivação também, em particular para adultos porque o técnico pode explicar que já teve um caso semelhante ou até mais difícil, e a pessoa com D.V. já executa a solução diariamente sem preocupações.

Já foi referido que uma competência é algo que podemos aprender sem aulas formais e que o técnico apenas preenche as lacunas nos conhecimentos do cliente. Também foi referido que os pais, os educadores e professores têm um papel neste processo. Será que qualquer pessoa com uma boa dose de paciência e um sentido de orientação pode ensinar O.M. a um familiar ou amigo? A resposta é que podem contribuir, reforçando os ensinamentos do técnico e permitindo à pessoa com D.V. pôr em prática os novos conhecimentos. Mas sozinhos não vão longe. Por um lado, quase todos nós temos dificuldade em aprender com as pessoas mais chegadas. Por exemplo, no infantário as crianças mostram comportamentos e capacidades que não são aparentes em casa, e são poucas as pessoas que conseguem ensinar a/o esposa/o a conduzir. Por outro lado, a perda da visão pode ter deixado as pessoas mais chegadas fragilizadas e incapazes de permitir à pessoa com D.V. correr riscos ou ser exigente com ela. E mais ainda, um técnico tem conhecimentos que permite perceber quando um objeto na rua é meramente uma barreira e quando é um potencial ponto de referência. Sabe quais as informações que uma bengala pode transmitir e como se pode orientar sem ver o mundo à sua volta. Há vantagens em contactar um profissional.

Ao longo deste artigo foi usada a expressão técnico de O.M. e ela aparece em pelo menos um decreto-lei, mas se tentar inscrever-se como tal no Centro de Emprego vai ser informado que esta profissão não existe em Portugal. A profissão (ofício?) não é regulamentada e nunca foram definidas habilitações profissionais ou académicas. É compreensível quando não existem cursos profissionais homologados neste campo e ao nível superior atualmente existe apenas um curso de 25 horas e este é designado formação contínua para professores.

Existe uma ou outra profissão regulamentada que pode defender a posição que a O.M. encaixa no âmbito desta profissão. Contudo, os seus cursos de formação não incluem módulos sobre O.M. e alguns nem sequer falam no tema da D.V. Os terapeutas ocupacionais, psicomotricistas e outros profissionais que concorrem para o lugar de técnico de O.M. na ACAPO reconhecem que não estão devidamente preparados e contam com a formação interna que recebem.

Em alguns países europeus e nos EUA existem habilitações académicas no campo de O.M., por vezes fazendo uma distinção entre professores, que vão trabalhar apenas com crianças em escolas, e técnicos que trabalham com os adultos em serviços de reabilitação. O curso típico é uma pós-graduação oferecida por um departamento de psicologia ou de educação especial.

Porém, podemos perguntar se é necessário existir um curso académico ou se eventualmente seria melhor um curso profissional. Durante duas décadas no Reino Unido existiam apenas cursos profissionais onde o principal critério de seleção era ser adulto. A ideia era formar pessoas que tinham muitas experiências de vida e assim poderiam facilmente criar empatia com os clientes, na sua maioria pessoas idosas. Um adulto que perdeu a visão pode mostrar resistência a aceitar os conselhos de um jovem recém-licenciado.

Mas não vale a pena discutir os prós e contras dos diversos tipos de formação porque não há procura. Até uma pessoa ter um contato prolongado com pessoas com deficiência nem sabe que esta profissão (ou ofício) existe. A maioria dos candidatos para cursos de psicomotricidade, terapia ocupacional e afins, pretende trabalhar em clínicas e hospitais onde vão vestir uma bata e ajudar pessoas a recuperar de doenças e acidentes. Não se imaginam a andar na rua, à chuva, a olhar para uma pessoa que está à procura de um candeeiro que indica onde está a passadeira. Regra geral, descobrem a O.M. ou depois de trabalhar em outros ramos ou quando andam à procura do emprego e se deparam com um anúncio da ACAPO. Não significa que quando ocupam o lugar não vão dar o melhor, não vão estudar o assunto, não vão aplicar a sua formação de base. Fazem tudo isso e podem transformar-se em grandes técnicos de O.M. Simplesmente significa que não há uma série de jovens à procura de cursos nesta área. A Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa, que desde os anos 70 ministrou, esporadicamente, pós-graduações em O.M., deixou de oferecer a versão mais recente do curso por falta de candidatos. Agora apenas oferece um módulo dentro de um curso sobre envelhecimento e mobilidade.

No curto prazo a solução pode ser introduzir módulos sobre O.M. nos cursos superiores sobre psicomotricidade, terapia ocupacional e afins, com a opção de especialização na fase de mestrado. Resultaria em técnicos mais bem preparados mas infelizmente não existem ofertas de emprego neste campo. O número de técnicos de O.M. em Portugal não deve chegar a vinte, dos quais onze trabalham na ACAPO. Mesmo se existissem cursos, valeria a pena investir num que não tem saída profissional? Até mais câmaras seguirem o exemplo de Torres Vedras e criarem gabinetes de apoio à D.V. ou até mais clínicas optarem por oferecer serviços neste campo, as ofertas de emprego vão ser escassas.

Podemos ter certeza que continuará a haver procura por parte das pessoas com D.V. e tudo indica que a ACAPO continuará a ser a entidade que oferece apoio em mais pontos do país e emprega mais técnicos nesta área. Sem expetativas da abertura de novos cursos, por enquanto teremos de apostar na formação interna para assegurar uma resposta habilitada.
 

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Orientação e Mobilidade: uma “profissão” com futuro?
autor:  Peter Colwell, Técnico de Acessibilidade na ACAPO
Revista Louis Braille
Data/edição N.º20 | 2016

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Relatório " Education and Training - Monitor 2019"



Recentemente, foi publicado o Relatório "Education and Training - Monitor 2019" (versão resumida em português) com uma parte referente a Portugal.

Em síntese, o relatório destaca:

-Os professores estão satisfeitos com o seu trabalho, porém, subsistem desafios tais como o envelhecimento da população docente, a elevada proporção de pessoal não permanente e as lacunas na integração e no desenvolvimento profissional contínuo.
-O investimento na modernização das infraestruturas é insuficiente, em especial, na educação e no acolhimento na primeira infância nas zonas metropolitanas.
-As disparidades regionais em termos de resultados educativos, repetição de ano e taxas de abandono precoce da educação e formação estão a melhorar. O número de diplomados do ensino superior aumentou, mas a procura de especialistas em TIC por parte das empresas excede a oferta.
-Mantém-se uma proporção muito significativa de adultos com um baixo nível de qualificações e é reduzida a participação dos adultos na aprendizagem.

Relativamente aos professores, salienta, entre outros aspetos, que "A formação inicial de professores está a ser modernizada, mas as mudanças ainda não se concretizaram. A formação de professores é realizada em estabelecimentos de ensino superior: as universidades preparam os professores principalmente para o ensino secundário, e os institutos politécnicos para o ensino pré-escolar e básico. A formação culmina com um estágio de várias semanas em «escolas de acolhimento», sob a supervisão de um professor orientador. Foi recentemente introduzida uma formação pedagógica para necessidades educativas especiais, todavia ainda não está presente em todos os programas (CNE, 2018; Liebowitz et al., 2018). No caso do ensino superior, o requisito mínimo para iniciar uma carreira académica nos institutos politécnicos e nas universidades é um grau de doutoramento (National Assembly, 2009a, 2009b). No entanto, uma proporção significativa, mas decrescente, de professores nos institutos politécnicos possui apenas graus inferiores." (p. 4).

sábado, 28 de setembro de 2019

Portugal é o campeão das acessibilidades? "Este prémio é uma brincadeira"

Para Salvador Mendes de Almeida, de 37 anos, os dias são desenhados com dificuldade, à imagem daquilo que a cidade lhe permite: pouco, para um país que recebeu na semana passada a distinção de Destino Turístico Acessível 2019, da Organização Mundial do Turismo. Aos 16 anos, um acidente de moto deixou-o tetraplégico e desde então que decidir onde viver e por onde passar é um processo de régua e esquadro. "Este prémio é uma brincadeira", não hesita em dizer. Há décadas que a legislação portuguesa sobre as acessibilidades parou no tempo num país dito campeão.

Estamos na capital, na Avenida da Liberdade, onde todos os dias passeiam centenas de turistas, para cima e para baixo, desaguando em dois pontos arteriais da cidade: ou no Marquês ou na Praça dos Restauradores. É um local de passagem quase indispensável para quem conhece Lisboa pela primeira vez. As numerosas lojas que enchem a Avenida gabam os seus produtos nas montras, convidando todos a entrar. Mas nem todos podem realmente fazê-lo. Como é o caso de Salvador, para quem esta é apenas uma avenida de obstáculos: buracos nos passeios, calçada desnivelada, falta de acesso às passadeiras e lojas.

Centenas de queixas por mês

Antes de Salvador ficar preso a uma cadeira de rodas, "nunca tinha pensado" nas dificuldades com que todas as pessoas com limitações motoras se deparam nas ruas. Era apenas um adolescente, com 16 anos, desportista de rugby, futebol e equitação, quando um acidente de moto lhe provocou uma lesão medular que o deixou tetraplégico. Não passou muito até que esbarrasse com os obstáculos da cidade. "O primeiro impacto nos meus pais fê-los dizer: 'vamos viver para fora'." "Mas era uma grande transformação na vida", que o faria abdicar da presença da família e dos amigos na fase em que precisaria de mais apoio, lembra. "A vida muda completamente", embora a cidade não mude com ela.

Entre os vários estabelecimentos com presença na Avenida, são raros aqueles que dispõem de uma simples rampa à entrada. E mesmo alguns dos que têm uma, guardam lá dentro armadilhas apenas ultrapassáveis para quem caminha sobre o próprio pé, como acessos a segundos pisos por escadas. "Posso levar umas rampas portáteis comigo", anota como uma possível solução. Mas o problema começa imediatamente antes de chegar ao passeio. Alcançar a maioria das passadeiras presentes nas laterais da Avenida é uma missão (quase) impossível para Salvador.

Ainda não tínhamos começado a nossa caminhada pela rua abaixo, já apontava para um exemplo diante dos nossos olhos. "Vou tentar." Desceu, com dificuldade, um passeio com cerca de três centímetros. E subir é ainda mais complexo. "Numa cadeira normal (não elétrica) é impossível fazer isto", por facilitar o desequilíbrio. "Nisso sou um privilegiado com esta cadeira, que já tem estas rodas grandes à frente para uma maior estabilidade. Mas também tem um senão: enquanto com uma cadeira de rodas manual qualquer pessoa consegue ajudar, empurrando-a, com esta isso não é possível. Pesa 200 quilos", lamenta. Quando a manobra é impossível, Salvador só tem uma hipótese: "Vou pela estrada."

As queixas são recorrentes. Desde o início do ano e até finais de agosto, o gabinete de acessibilidade da Associação Portuguesa de Deficientes (APD) registou 198 reclamações e pedidos de esclarecimento a nível nacional sobre falhas na acessibilidade. Em 2018, foram 270 no total. As exposições devem-se sobretudo à "falta de condições de acessibilidade" em transportes, edifícios e via pública para organismos públicos e privados, prevista no Decreto-Lei n.º 163/2006. Mas também ao estacionamento reservado, à sinalização e ao reconhecimento de cartões de estacionamento.

Já lá iam alguns anos de experiência à boleia de uma cadeira de rodas quando Salvador decidiu reutilizar a sua história para fazer a diferença. Em 2003, criou a Associação Salvador, um organismo onde trabalham atualmente cerca de duas dezenas de pessoas para promoção da inclusão de indivíduos com deficiência motora. Desde ações de sensibilização a gabinetes de apoio ao emprego.

Nada indiferente às barreiras urbanas, a associação lançou a 3 de maio do ano passado uma aplicação que visa ser um apoio à mobilidade dentro das cidades. Através da + Acesso, como foi nomeada, é possível visualizar e criar classificações sobre as acessibilidades dos espaços por onde se passa, denunciando os maus exemplos e partilhando os bons.

Quando há uma denúncia oficial, esta é imediatamente reencaminhada para entidades competentes pela fiscalização. A associação indica que, só este ano, já foram registadas cerca de mil denúncias, a maioria delas em Lisboa - embora seja um dado pouco significativo, dado que a maioria dos utilizadores da aplicação também está localizada nesta cidade -, seguida de Porto, Albufeira, Olhão e Coimbra.
Lei sem fiscalização

Quase todos os bons exemplos urbanos que Salvador vai mencionando têm uma segunda face. Depois das obras concretizadas na Avenida Duque D'Ávila, na zona do Saldanha, por exemplo, "a rua ficou espetacular, com um passadiço para as cadeiras". "Mas depois conto pelos dedos das mãos os restaurantes nos quais consigo entrar", aponta. A mudança deve ser integrada, partir de todos e não de exemplos de exceção. Por isso é que "a lei tem de ser revista", sublinha.

O ano de 1982 foi não só o ano que Salvador nasceu mas também o ano em que ficou publicado o primeiro decreto-lei em que ficou descrita a importância da acessibilidade nos locais públicos e privados. Embora só quase duas décadas depois, em 1997, é que foi lançado um prazo de sete anos para que todos os edifícios e via pública fossem adaptados. Mas terminado este prazo, em 2004, o país continuava sem conceder todas as condições prometidas. O relógio voltou a contar do zero em 2006, com novo prazo que terminou no ano passado.

Um ano depois, Portugal torna-se o primeiro país no mundo a receber o prémio de melhor Destino Turístico Acessível e "foram feitas algumas melhorias, mas quase insignificantes" e "muitas delas mal pensadas", diz Salvador.

Atualmente, "só os espaços com mais de 150 metros quadrados têm a obrigação de ser acessíveis. E mesmo muitos destes, se formos analisar, não têm sequer uma rampa para entrar", explica. E há um grave problema de "falta de fiscalização", que gera facilitismo e retrai o compromisso perante a Lei das Acessibilidades.

Segundo a coordenadora do Observatório de Deficiência e Direitos Humanos (ODDH), "a lei atual é insuficiente, uma vez que não contempla as questões da acessibilidade à informação e comunicação, fundamentais para pessoas cegas, com baixa visão e surdas". Em entrevista ao DN, Paula Campos Pinto sublinha que "falta sobretudo uma adequada fiscalização da sua implementação, para punir situações de incumprimento e garantir que as soluções implementadas respeitam integralmente as normas estabelecidas". Porque "são infelizmente muitos os exemplos de situações em que as 'soluções' de acessibilidade criadas violam o estipulado na lei e constituem elas próprias situações de risco". Como é o exemplo das "rampas com inclinação excessiva" das "cadeiras de banho improvisadas para poder anunciar que se trata de um alojamento acessível".

Por isso mesmo, alerta que deve ser concedida prioridade à "implementação e fiscalização do que já está legislado", bem como à "integração desta preocupação de uma forma sistemática nos planos de desenvolvimento urbano e turístico e na formação dos agentes e operadores turísticos".

Associações surpreendidas com prémio

Salvador conta como já correu vários países e viu tantos outros perante os quais Portugal "está a anos-luz". "Não é preciso ir muito longe", diz, dando o exemplo de Espanha, "muito mais preparado ao nível das acessibilidades". Por isso, surpreende-o que tenha sido o seu país a receber esta distinção, entregue no decorrer da 23.ª assembleia geral da Organização Mundial do Turismo (OMT), em São Petersburgo, na Rússia.

Uma opinião partilhada pela Associação Portuguesa de Deficientes (APD), que "ficou manifestamente surpreendida com a atribuição do prémio". A entidade reconhece que "tenha havido algum esforço por parte das autarquias e das empresas", até em festivais de verão, "para melhorar o acesso às pessoas com mobilidade condicionada", mas "o incumprimento da legislação em vigor em termos de acessibilidade é a norma e o que agora foi premiado é a exceção".

Num comunicado ao qual o DN teve acesso, a APD diz desconhecer os critérios definidos pela Organização Mundial do Turismo para a avaliação que precedeu a distinção. "Mas não serão certamente considerados a acessibilidade da via pública, dos transportes, do edificado, da comunicação ou da informação porque neste caso concreto Portugal está longe de merecer qualquer troféu", pode ler-se.

Também Paula Campos Pinto, coordenadora do Observatório da Deficiência e Direitos Humanos (ODDH), diz que "devemos olhar esta distinção mais como um estímulo do que como um reflexo de uma realidade que, por agora, ainda apresenta muitas insuficiências e lacunas". Em entrevista ao DN, a especialista diz esperar que "a atribuição deste prémio ajude a criar essa consciência ao nível dos responsáveis políticos e dos operadores turísticos, elevando o seu compromisso com a melhoria contínua das condições de acessibilidade do país".

Há 90 milhões de turistas com necessidades específicas de mobilidade na Europa.

Em resposta ao prémio, a secretária de Estado do Turismo disse considerar este reconhecimento "um grande impulso para que Portugal se torne o destino mais inclusivo do mundo". Contudo, Ana Mendes Godinho admitiu à agência Lusa que "ainda há muito a fazer", acrescentando que "quem perde esta carruagem perde o comboio".

Já a secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência, Ana Sofia Antunes, defende que é o resultado "de um trabalho sólido e estruturado" em Portugal. "Este governo tem dado passos seguros no sentido de transformar Portugal num verdadeiro país inclusivo. É um caminho sem retorno, pois a isso nos obrigam todos aqueles para quem trabalhamos", disse a governante.

Segundo dados divulgados pelo governo, há 90 milhões de turistas com necessidades específicas de mobilidade na Europa. Foi com base nestes números que, em 2016, foi lançado um programa com o objetivo de criar roteiros acessíveis em todo o país, nomeado All for All. Daqui saíram 116 projetos, que representam um investimento de 20 milhões de euros, como a melhoria das acessibilidades no Castelo de São Jorge, em Lisboa, e nas Caves Calém, em Vila Nova de Gaia.

Fonte: DN

Número de estudantes com deficiência aumenta 158% em quatro anos

O número de estudantes com deficiências no ensino superior público voltou, este ano, a crescer. Com os resultados da 2.ª fase do concurso nacional de acesso, que esta quinta-feira foram divulgados, sobe para 310 o total de alunos foram colocados numa universidade ou politécnico ao abrigo do contingente especial para pessoas com limitações físicas ou sensoriais. É um crescimento de 34% em relação ao ano passado. Face a 2015, o aumento é ainda maior e quase triplica o número de entrada.

Há quatro anos, entraram 120 estudantes no ensino superior ao abrigo deste contingente especial. O número tem, desde então, crescido sucessivamente. No ano passado, entraram 231 alunos com deficiência no superior. Em relação a 2015, o crescimento no número de estudantes com deficiências no ensino superior cresce 158%.

A lei estabelece um contingente especial para estudantes com deficiências, que é destinado a candidatos com limitações físicas ou sensoriais. Esse contingente é composto por 2% das vagas fixadas para a 1.ª fase do concurso nacional de acesso, ou, no mínimo, por duas vagas por curso.

Atendendo ao número de lugares disponíveis no ensino superior no início de cada ano letivo — que tem estado sempre à volta das 50 mil nos últimos anos —, são cerca de 1000 os lugares em cada ano disponíveis para estudantes com deficiências nas universidades e politécnicos. Ou seja, apesar do crescimento no número de entrada que se tem verificado nos últimos anos, menos de um terço das vagas deste contingente especial são efetivamente ocupadas.

As instituições de ensino superior apontam a dificuldade de articulação entre o ensino superior e o ensino secundário como o principal problema que tem impedido a entrada de mais estudantes com deficiências nas universidades e politécnicos. Em 2017/18, havia cerca de 15 mil estudantes com necessidades educativas especiais no ensino secundário — um número que inclui todos os que apresentam algum tipo de dificuldade permanente de aprendizagem, seja ela causada por uma deficiência ou não.

Fonte: Público

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Trofa Semana da Mobilidade

Inserido nas comemorações da Semana da Mobilidade foi inaugurado no passado dia 22, pelas 11h30, na Trofa o Projeto Acesso +, projeto vencedor do Orçamento Participativo Jovem 2018 (OPJ) que inclui a adaptação de três passeiras (EN 14 e EN 104) para pessoas com deficiência visual ou motora. O descerramento simbólico de uma das placas sinalizadoras ocorreu junto do Parque Nossa Senhora das Dores. A Convite do Presidente da edilidade, Dr. Sérgio Humberto, a Presidente da Delegação do Porto, Paula Costa e o Secretário, Jaime Oliveira marcaram presença no evento.

24 de setembro - Portugal- Dia nacional do surdo

O Dia Mundial do Surdo é comemorado por membros da comunidade surda de todo o mundo (surdos e ouvintes) no último domingo do mês de Setembro de cada ano, com objectivo de relembrar as lutas da comunidade ao longo das eras, como por exemplo, a luta em prol do reconhecimento da língua gestual nos diversos países do globo

I (DES)ENCONTRO DE EDUCAÇÃO INCLUSIVA

A MDC Psicologia & Formação, em colaboração com a Escola Superior de Educação Paula Frassinetti (ESEPF), convidam-no(a) para o I (Des) Encontro de Educação Especial: desafios e aplicabilidade, que terá lugar nos dias 22 e 23 de novembro de 2019. Este I (Des)Encontros de Educação Inclusiva ambiciona ser um momento de reflexão e um espaço de partilha sobre os desafios que o novo regime jurídico veio colocar às escolas. Passado um ano da sua implementação revela-se pertinente questionar como tem sido a sua aplicabilidade. É emergente a necessidade e vontade de dar respostas diferenciadas e ajustadas, que respeitem os princípios preconizados e contemplem a abordagem multinível e o desenho universal para a aprendizagem subjacentes a este diploma. Contando com a colaboração de profissionais e especialistas nesta área da educação, pretende-se refletir, partilhar e engrandecer a prática individual e conjunta enquanto intervenientes ativos deste processo educativo para todos e de cada um dos alunos, respeitando as suas necessidades e potencialidades.

Para saber mais e inscrição

Doenças Degenerativas da Retina

  visão de um doente com Stargardt


Mãe que narra os jogos para o filho deficiente visual ganha o ‘Fifa Fan Awards’

Silvia Grecco e o seu filho com deficiência visual Nickollas conquistaram o prêmio de Torcedor do Ano da Fifa, com a belíssima história de amor entre a mãe que narra os jogos para o filho cego nas arquibancadas do Allianz Parque. Vai, planeta! ♥️

“Eu gostaria de compartilhar este prêmio com o senhor Justo Sánchez, que também tem uma linda história de amor com o filho dele. Nikollas, aqui na frente estão muitas pessoas, muitos jogadores, muitos ídolos, estamos aqui representando nosso time, Palmeiras, e todos os torcedores do Brasil e do mundo, todos aqueles que torcem pela pessoa com deficiência. O futebol pode transformar a vida dessas pessoas, e o simples gesto de narrar os jogos para o meu filho, tivemos a oportunidade de um jornalista da TV Globo, Marco Aurélio Souza, nos vir com os olhos do coração”, agradeceu Silvia. 

Magia na Escuridão de Juan Esteban Varela

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e texto
Espetáculo de magia para invisuais ou para sentir de olhos vendados - de 17 a 21 de Setembro 2019Encontros Mágicos - 23º Festival Internacional de Magia de Coimbra

À semelhança das duas últimas edições dos Encontros Mágicos, voltamos a receber um espetáculo muito especial - MAGIA NA ESCURIDÃO, por Juan Esteban Varela, reconhecido mágico chileno que protagoniza uma experiência verdadeiramente inclusiva, sem precedentes, convidando a comunidade invisual a assistir a um espetáculo de magia em que o sentido da visão não intervém.  Aos não invisuais serão colocadas vendas para que assistam e vivam uma experiência única e em circunstâncias tendencialmente idênticas.

A entrada é gratuita, sujeita à lotação da sala, mediante inscrição prévia na bilheteira do Convento São Francisco.
Classificação etária: M/12
Duração: 60 minutos
Local: Convento São Francisco, Coimbra
Bilheteira: 239 857 191
bilheteira@coimbraconvento.pt

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

O uso das tecnologias

Quando se usa a tecnologia, conseguimos ampliar o espectro de aprendizagem de todos os alunos. Ela é atraente e inovadora e permite ir ao encontro das especificidades de cada um. Há alunos que necessitam de mais pistas visuais, outros de uma experiência maior para visualizar um conteúdo de forma prática.

Uso da tecnologia facilita engajamento de alunos com deficiência

programa individualizado para alunos cegos ou com deficiência visual

https://vision.alberta.ca/media/46157/ecep_blind_or_visually_impaired[1].pdf

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Livro 'Como Dorinha Vê o Mundo'


Livro "Como Dorinha vê o mundo" (Foto: Divulgação)


Dorinha pode não enxergar, mas isso não significa que ela não conheça o que está em sua volta. "É através do tato, usando os dedos e as mãos, que os cegos começam a perceber o mundo”, diz a personagem no livro Como Dorinha Vê o Mundo, lançado nesta sexta-feira (03) em um evento na Fundação Dorina Nowill, em São Paulo.

A abertura do evento foi feita por Alexandre Munck, superintendente da fundação, que lembrou que Dorina de Gouvêa Nowill (a inspiração para a personagem da Turma da Mônica) completaria 100 anos neste mês. No local, artistas com as fantasias de Mônica e Dorinha fizeram muito sucesso com as crianças atendidas pela fundação.

Feito em braile e com fonte ampliada para as pessoas com baixa visão, o livro será distribuído gratuitamente para 500 escolas da rede municipal de ensino de São Paulo. A iniciativa da Fundação Dorina Nowill para Cegos é uma parceria com o Instituto Mauricio de Sousa e do Fundo Municipal da Criança e do Adolescente (FUMCAD).

Nesta primeira edição, foram produzidos 3 mil exemplares: eles começarão a chegar nas escolas neste mês. A ideia é que fiquem nas bibliotecas das escolas, disponíveis para todos os estudantes.

O livro mostra como é a realidade de pessoas com deficiência visual, desde a leitura pelo braile até a prática de esportes. Segundo Eliana Cunha, coordenadora da área de educação inclusiva da fundação, a intenção é que o livro seja trabalhado em toda a sociedade para que todos entendam como como é a vida de uma pessoa com deficiência visual — e como isso não significa que ela será menos capaz de fazer algo.

Como Dorinha Vê o Mundo fecha uma série que já tem cinco livros sobre a acessibilidade da educação para deficicência visual. Com 24 páginas, o livro é super fácil de ser lido pela criançada.

A LEGO vai lançar tijolos de brincar que permitem aprender a ler em braille.


| Os novos kits vão ser compostos por cerca de 250 blocos com o alfabeto completo, números de zero a nove e alguns símbolos matemáticos. |

Existem cerca de 1,4 milhões de crianças cegas no mundo, de acordo com a Organização Mundial de Saúde. Nos Estados Unidos, por exemplo, apenas cerca de 10% das crianças cegas aprendem braille, segundo um relatório de 2017, da Federação Nacional dos Cegos. Foi a pensar nestes números que a LEGO Foundation e a LEGO Group apresentaram esta quarta-feira, 24 de abril, em Paris, uma nova coleção de tijolos de brincar em braille. O objetivo é o de ajudar as crianças com dificuldades visuais a aprenderem a língua tátil dos cegos enquanto brincam.

Assim, de acordo com a LEGO, o número de pinos de encaixe dos novos blocos vai corresponder a cada letra ou número do alfabeto braille. Também vão ter as letras e os números para que os professores e crianças sem problemas de visão, possam também aprender a ler em braille.

O Diretor Sénior de Arte da LEGO Group, Morten Bonde, que sofre de um distúrbio nos olhos que o deixa cego gradualmente, participou como consultor no projeto e afirmou que “experimentar as reações de alunos e professores à LEGO Braille Bricks foi extremamente inspirador”.

“Fez-me perceber que as únicas limitações que vou encontrar na vida são aquelas que eu crio na minha cabeça. Fico comovido por ver o impacto que este produto tem no desenvolvimento da confiança académica e da curiosidade das crianças cegas e deficientes visuais nos seus primeiros dias de vida.”

O projeto já está a ser testado em dinamarquês, norueguês, inglês e português e durante o terceiro trimestre deste ano será também lançado em alemão, espanhol e francês.

Ainda de acordo com a empresa dinamarquesa, é esperado que o produto final seja lançado em 2020. Os kits serão compostos por cerca de 250 blocos de cinco cores diferentes, com o alfabeto completo, números de zero a nove, alguns símbolos matemáticos e também vão incluir ideias para jogos didáticos e interativos.

A ideia para o projeto LEGO Braille Bricks surgiu em 2011, sugerida pela Associação Dinamarquesa dos Cegos. Em 2017, a Fundação dos Cegos Dorina Nowill voltou a tocar no assunto. Agora, o projeto nasceu e conta com a colaboração de associações da Dinamarca, Brasil, Reino Unido e Noruega.

Tablets com Tinta inteligente para traduzir Websites em braille


 
Ao falarmos de informação na atualidade, falamos do mundo digital e da internet. Um mundo que é menos acessível para 285 milhões de pessoas que sofrem de algum tipo de deficiência visual. O Blitab permitirá aos invisuais estudarem, informarem-se, jogarem e, sobretudo, sentirem-se integrados numa sociedade em que ninguém deve ser excluído.

Kent Cullers é um astrofísico norte-americano que sempre sonhou trabalhar na NASA, e não desistiu até conseguir. Durante vários anos foi um dos responsáveis pelo famoso programa SETI, cujo propósito é encontrar sinais de inteligência extraterrestre no espaço. A sua história, embora pouco comum, torna-se extraordinária graças a um simples detalhe: Cullers é invisual. Na verdade, talvez seja o primeiro astrónomo invisual dos Estados Unidos. Foi inclusive nessa peculiaridade que Robert Zemeckis se inspirou para criar uma das personagens do filme Contacto.

A história de Cullers – tal como a de outros invisuais famosos, como Ray Charles ou Jorge Luis Borges – demonstra que, com determinação e uma vocação verdadeira, os invisuais podem desempenhar praticamente qualquer atividade profissional. Com determinação e com a ajuda das ferramentas adequadas, claro. Ferramentas como a que Kristina Tsvetanova criou.

As dificuldades que um amigo invisual sentiu para se inscrever num curso online, que para a maioria das pessoas é um processo simples, incentivaram a engenheira búlgara a procurar uma solução que permitisse aos invisuais superarem a barreira digital. “Só 1% da informação total está disponível em braille. Essa é a única possibilidade que as crianças e os adultos têm de se alfabetizarem, de aprenderem a ler e a escrever”, explica Tsvetanova. “Isso é crucial para depois poderem arranjar emprego”.

Ao falarmos de informação na atualidade, falamos do mundo digital e da Internet. Um mundo que é menos acessível para 285 milhões de pessoas que sofrem de algum tipo de deficiência visual. Foi dessa injustiça – que emocionou Tsvetanova – e da vontade de ajudar que nasceu o Blitab, o primeiro tablet do mercado capaz de, em tempo real, converter em braille textos e gráficos provenientes de páginas na internet ou de equipamentos de armazenamento digital, como drives USB. O sistema criado por Tsvetanova e pelos seus parceiros consiste num líquido inteligente que forma pequenas bolhas, para que se possa ler.

O Blitab permitirá aos invisuais estudarem, informarem-se, jogarem e, sobretudo, sentirem-se integrados numa sociedade em que ninguém deve ser excluído. Empresas, organizações sem fins lucrativos, governos e universidade de todo o mundo já manifestaram interesse na sua ideia, o que augura uma projeção mais interessante. Tsevetanova, eleita um dos 35 inovadores com menos de 35 anos pelo MIT, considera que os equipamentos que recorrem ao áudio não são concorrentes do Blitab porque “o braille nunca desaparecerá, tal como a palavra escrita”. Uma ideia bonita, que nos enche de esperança.
Entrevista e edição: Noelia Núñez | Douglas Belisario - Texto: José L. Álvarez Cedena

Os requisitos para aprovar Sistema de Navegação para Cegos - Em parceria com 'The European Commission'-



Quando se inventa uma nova tecnologia, o desenvolvimento é uma etapa essencial, mas é preciso também que o aparelho seja aprovado pelas autoridades.

Em entrevista à euronews, os investigadores do projeto europeu Sound of Vision explicaram as condições necessárias para comercializar o novo sistema de navegação para pessoas cegas.

"Temos a responsabilidade de garantir que o aparelho responde aos requisitos legais e de segurança da União Europeia", explicou Arthur Molnar, Investigador da InfoWorld. "Criámos um cenário e aperfeiçoamos o software para comunicarmos com ele à distância. Podemos perguntar ao aparelho se há algum problema ao nível do software e do hardware, antes de o utilizador final saber", acrescentou o responsável.


A miniaturização do aparelho


"O aparelho tem de ser pequeno, para não atrapalhar o utilizador. É muito importante que o utilizador se sinta bem e que não tenha a sensação de usar algo estranho. O aparelho tem de ser concebido para todos os estados do tempo, durante o dia, durante a noite, quando chove ou quando há uma tempestade de neve, por exemplo", frisou o investigador da InfoWorld.


+  informação aqui: https://pt.euronews.com/

Lego vai disponibilizar manuais de instruções em braille e áudio


A Lego vai passa a disponibilizar manuais de instruções de construção em braile e áudio, anunciou a empresa de brinquedos dinamarquesa na sua página oficial.

O projeto-piloto, lançado este mês e que recorre à Inteligência Artificial (IA), foi inspirado no empresário cego Matthew Shifrin. Tal como conta o Newsweek, Shifrin viu-se obrigado a confiar numa amiga, Lyla, para que lhe escrevesse as instruções da construção para que depois as pudesse passar para braile.
“[Lyla] aprendeu braille ao relacionar-se comigo e ao apoiar a minha paixão pela Lego. Passou inúmeras horas a traduzir instruções da Lego em Braille”, disse Shifrin, que recorreu a estas instruções improvisadas para criar modelos Lego da London Tower Bridge e da Ópera de Sidney, que são compostas por centenas de peças.
“Para as pessoas cegas, os conjuntos da Lego atuam como substitutos 3D em miniatura de edifícios da vida real, em vez de fotografias bidimensionais. Os tijolos da Lego permitem-se ver coisas impossíveis de explorar pelo toque”, disse, citado pelo mesmo portal.
Depois da morte da sua amiga, em 2007, Shifrin entrou em contacto com o Creative Play Lab da Lego para disponibilizar instruções de construção para outros fãs com deficiência visual. Para isso, recorreram a um software de IA que traduz as instruções gráficas disponibilizadas com os brinquedos em texto em comandos de braile e voz. Os utilizadores poderão gerar o áudio através de um ecrã leitor próprio ou pode usar o áudio disponibilizado pela empresa. Há ainda a opção de leitura das instruções em braile.
Atualmente, o programa oferece instruções sobre a criação de conjuntos das séries Lego Classic, Lego City e Lego Friends. Dependendo do feedback do consumidor, a Lego lançará mais áudios e instruções em braille no início de 2020.
“Isto é extremamente importante para crianças cegas porque não há muitos lugares em que podemos dizer: Eu construí isto sozinho”, explicou Shifrin.
“Para crianças cegas, não temos o acesso que as crianças com visão têm. Os tijolos de Lego permitem-nos aprender sobre o nosso ambiente, ver o mundo. É tão importante porque as crianças cegas ficam de fora de muitas coisas sociais, especialmente na escola primária. Mas a construção de Lego é uma das coisas que podemos fazer”.

A diretora criativa da Lego, Fenella Blaize Charity, disse, também citada pelo Newsweek, que a história de Shifrin mostra como é que as peças de construção da lego estimulam a criatividade a aproximam as pessoas. “Foi uma honra trabalhar com Matthew, a sua paixão e energia são realmente inspiradoras. Mas o mais importante é que o seu projeto ajudará crianças com deficiência visual em todo o mundo a ter a mesma alegria de construir e o orgulho em criar que todos os nossos fãs sentem”.

Ver o vídeo aqui.

Facing Emotions é a aplicação da Huawei que ajuda pessoas cegas a interpretar emoções


A Huawei refere, acreditar que a tecnologia deve ser livre e estar disponível para todos. Independentemente de quem somos ou de onde vimos. Para que a vida de todos seja melhor. A aplicação Facing Emotions faz parte desta missão assumida pela marca chinesa. Com aplicação Facing Emotions, a Huawei consegue usar as novas tecnologias para ajudar pessoas cegas e portadoras de deficiência visual a interpretar emoções através de sons.

No mundo das pessoas que vêem, um simples sorriso é algo que todos tomamos como garantido. Mas existem milhões de pessoas, que por serem incapazes de ver rostos e “ler” pistas emocionais, ficam, muitas vezes e, neste caso, literalmente, às escuras.

Com a aplicação Facing Emotions e o poder da Inteligência Artificial, fica agora mais fácil interpretar as emoções no rosto das pessoas com quem as pessoas com incpacidade visual está a conversar, mesmo para quem não é capaz de ver. Para que desta forma consigam ouvir um sorriso. E estar mais ligadas aos que as rodeiam.

COMO FUNCIONA
Com ajuda da poderosa câmara e da Inteligência Artificial do Kirin 980, a aplicação é capaz de interpretar sete emoções humanas transformando-as em sete sons únicos.
Através da câmara do telemóvel, a aplicação analisa o rosto da pessoa com quem a pessoa cega está a conversar, identificando os olhos, nariz, sobrancelhas e boca, assim como as suas posições.
A Inteligência Artificial processa, então, a emoção e produz um som especifico no telefone, dependendo da emoção. Tudo isto acontece em tempo real e em modo offline.
TRANSFORMAR SENTIMENTOS EM SONS
A aplicação utiliza Inteligência Artificial para reconhecer sete emoções – raiva, medo, repugnância, felicidade, tristeza, surpresa e desprezo. O compositor cego Tomasz Bilecki ajudou-nos a reinventar estas emoções tranformando-as em sons. Utilizámos a sua perspetiva única sobre a natureza do som para criarmos áudios curtos e fáceis de lembrar.

A Huawei desenvolveu a Facing Emotions em parceria com a Associação Polaca para Pessoas Cegas e a própria comunidade de pessoas cegas, e em conjunto com um grupo de testers trabalhamos para criar a experiência final da aplicação, desde a funcionalidade até às cores e aos sons.

Foi através desta colaboração que conseguimos perceber que os utilizadores desta aplicação gostariam de ter uma opção de mãos-livres, uma vez que as pessoas portadoras de deficiências visuais precisam, frequentemente, das mãos para segurar uma bengala ou para se conseguirem deslocar. Foi assim que acabamos por juntar forças com o premiado designer Janek Kochanski para criar um suporte 3D especial para telemóveis. O design contemporâneo de Kochanski é uma combinação de forma com funcionalidade, o que tornar a utilização do Mate20 Pro e da aplicação mais intuitiva e simples para estas pessoas.

A parceria com a comunidade de pessoas cegas permitiu-nos compreender os desafios que enfrentam e construir uma solução tecnológica que é exclusivamente adaptada às suas necessidades. Uma ferramenta que, esperamos, possa iluminar a escuridão e tornar o seu dia-a-dia um pouco melhor.

Download disponível na App Gallery da HUAWEI.

Sunu Band - a pulseira detetora de obstáculos inteligente

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Detecção de Obstáculos
A Sunu Band é uma pulseira detetora de obstáculos para pessoas cegas ou com baixa-visão. Pode funcionar por si só ou em ligação ao Smartphone, para funções adicionais. Desenhada para complementar a bengala, a Sunu Band avisa-o da presença de obstáculos ao nível do peito e da cabeça, através de vibrações. O alcance da deteção pode ser definido por si, e existem dois modos: interior e exterior.

Relógio vibratório
a Sunu Band é também um relógio vibratório. Se estiver num ambiente ruidoso, ou onde se faça silêncio, os relógios de voz podem ser inadequados. É aí que a Sunu Band se mostra útil, ao dizer-lhe as horas através de um código de vibrações sucessivas, que pode facilmente aprender. Além disso, possui alarme despertador, programável através da aplicação móvel para Android e iOS.

Bússola
A Sunu Band funciona também como uma bússola que lhe indica as direções cardeais. Basta esticar o seu braço e rodar o corpo para saber em que direção seguir. Esta função funciona em conjunto com a aplicação móvel, e com o Google Mapas.

Localizador de sítiosA aplicação Localizador de Sítios é uma ferramenta de orientação que permite explorar e aceder a vários locais que estão próximos. Poderá explorar várias categorias de lugares, entre eles: Estações de metro, Restaurantes, Lojas, Hospitais, Bancos, Farmácias, Cafés, Multibancos, etc. O Localizador de Sítios permite que selecione diferentes categorias de lugares que estão ao seu redor e receba orientações guiadas, em tempo real, para chegar ao local desejado. A orientação é oferecida por voz no seu dispositivo móvel.


Preço de lançamento: 350 euros (até 31 de dezembro)

Sertec - Tecnologia AcessívelTelefone: 219435183 | Email: info@sertec.pt

Adolescente fica cego depois de fazer alimentação à base de batatas fritas




Os exames mostraram que o adolescente desenvolveu neuropatia ótica nutricional, ou dano do nervo ótico, provocada por deficiências nutricionais

A partir da escola primária, o jovem começou apenas a comer batatas fritas e, ocasionalmente, pão, fatias de presunto e salsichas. A sua má alimentação levou à cegueira e a problemas de audição.

Um rapaz britânico de 17 anos ficou cego depois de ter feito uma alimentação apenas à base de batatas fritas e, ocasionalmente, outros produtos como pão, presunto e salsichas, revelou um relatório publicado pelo Colégio Americano de Médicos. De acordo com este documento, a visão do adolescente foi-se deteriorando gradualmente ao ponto de chegar à cegueira total, uma vez que desenvolveu problemas neurológicos provocados por deficiências nutricionais.

Quando saiu da escola primária, o jovem, cuja identidade não foi revelada, passou a comer essencialmente batatas fritas e ocasionalmente pão e fatias de presunto ou salsichas. Aos 14 anos, teve de ser submetido a alguns exames, uma vez que se sentia constantemente cansado e mal-disposto, revela o estudo, que acrescenta que o rapaz era um “comedor exigente” e que não tomava medicamentos. Os exames revelaram que o jovem tinha anemia macrocítica e défice de vitamina B12 e os médicos receitaram alguns suplementos. No entanto, e algum tempo depois, o adolescente deixou de fazer o tratamento e manteve a sua alimentação.

Os problemas não terminaram aqui. Aos 15 anos, o adolescente de Bristol, no Reino Unido, começou a desenvolver problemas de visão e de audição, mas os médicos não conseguiam encontrar uma causa, uma vez que os exames que faziam apresentavam valores normais. Nos dois anos seguintes, a visão do jovem continuava a piorar. Quando tinha 17 anos, foi ao oftalmologista e fez exames, que revelaram que tinha uma visão de 20/200 em ambos os olhos, sendo assim considerado “legalmente cego”.

Não comia nenhuma fruta ou vegetal
Os exames mostraram que o adolescente desenvolveu neuropatia ótica nutricional (NON), ou dano do nervo ótico, provocada por deficiências nutricionais. Este tipo de problemas pode ser causado pelo consumo de drogas, pela má absorção de alimentos, por má alimentação ou pelo consumo excessivo de álcool. “As causas puramente alimentares são raras nos países desenvolvidos”, explica o estudo. Além disso, o jovem continuava também com baixos níveis de vitamina B12 e de cobre, selénio e vitamina D.

Denize Atan, uma das médicas que tratou do jovem, revelou que a sua dieta era “essencialmente uma dose diária de batatas fritas do restaurante local” e que o jovem não comia “nenhuma fruta ou vegetal”.

Ele explicou que tinha aversão a certas texturas de comida que não conseguia tolerar e, por isso, as batatas fritas eram o único tipo de comida que queria e que achava que podia comer”, acrescentou a especialista, citada pela BBC.

O caso vem revelar um facto pouco conhecido da má alimentação: além de estar associada à obesidade e a doenças cardíacas, pode também “danificar permanentemente o sistema nervoso, particularmente a visão”, revela o estudo. Este problema em particular podia ser reversível se tivesse sido detetado mais cedo. O jovem está agora a tomar mais suplementos destinados a impedir que a sua visão piore ainda mais.

fonte: Observador

Problemas de visão aumentam insucesso escolar


Sociedade Portuguesa de Oftalmologia adverte que problemas de visão podem originar falta de interesse e dificuldades de aprendizagem por parte dos alunos
 
O regresso às aulas está quase aí. Alunos e famílias preparam mais um ano letivo. Compram-se os manuais, a mochila nova para os cadernos por estrear, os estojos com as canetas e os lápis por usar. Tudo é importante para obter bons resultados, mas é preciso não passar a borracha sobre um fator que a Sociedade Portuguesa de Oftalmologia (SPO) aponta como potencial responsável de muitos casos de insucesso escolar. Veja bem o problema: uma em cada cinco crianças apresenta algum tipo de deficiência de função visual e os “erros refratários” — como miopia, hipermetropia, astigmatismo e estrabismo — “são as doenças que mais afetam” os mais novos.

“A falta de interesse e dificuldade de aprendizagem, por vezes incorretamente entendidas como incapacidade natural do aluno para aprender (preguiça ou pouca vontade de estudar), podem ter como fator desencadeante um problema de visão”, adverte a oftalmologista Sandra Barrão, da SPO. “A dificuldade em ver pode prejudicar o desenvolvimento, a adaptação e o relacionamento com os outros no ambiente escolar”, evidencia a especialista.

Olhos vermelhos, lacrimejo, prurido ocular, piscar muito os olhos, franzir os olhos e a testa, sensibilidade à luz, dores de cabeça, visão desfocada, perda de interesse por atividades que exigem esforço visual (leitura ou desenho), posicionamento estranho a ler, fechar ou tapar os olhos com alguma regularidade ou confundir letras são alguns dos sinais de alerta.

Mas é preciso estar atento, porque “os sintomas de deficiência visual nem sempre estão presentes” e “há crianças que não apresentam qualquer tipo de sinal ou marca, principalmente aquelas em que um dos olhos vê mal, por pequenos estrabismos ou por anisometropia (diferença de graduação entre os dois olhos)”.

A lição passa, defende Sandra Barrão, por uma “deteção precoce” dessas situações”, uma vez que “o olho humano atinge o desenvolvimento funcional por volta dos 10 anos de idade”. A oftalmologista recomenda que as avaliações visuais devem começar a ser feitas a partir dos 3 ou 4 anos ou, “idealmente, deve ser feito o primeiro rastreio entre os 12 e os 18 meses”.

Além dos rastreios, é necessário respeitar as condições para uma leitura mais adequada, valorizando a iluminação correta, a altura da cadeira e evitar ler de barriga para baixo.

A distância de leitura deve posicionar-se entre os 30 e os 40 cm. Quando o foco está no monitor do computador, “os olhos devem estar num nível superior (10º ou 20º) do centro do mesmo”, enquanto se estiver a ver televisão deve ficar a uma distância “cinco vezes superior à largura do ecrã”, aconselha Sandra Barrão.

fonte: vidaextra.expresso.pt
 

Ministro/a da Educação, precisa-se!


Estamos na véspera de um novo ciclo eleitoral, que determinará a composição política do próximo Ministério da Educação. Pelas sondagens existentes, parece não existir dúvida que a escolha do titular passará pelo Partido Socialista e pelo seu secretário-geral, António Costa. Na legislatura que está prestes a terminar, Costa optou por convidar para o Ministério da Educação um jovem cientista, sem passado político e sem uma ideia conhecida sobre a pasta que ia tutelar. Foi a fórmula encontrada para fugir à duplicidade do PS nas políticas educativas adotadas no passado e, reconheça-se agora, à necessidade de ter um bom ‘ajudante’ que não levantasse dificuldades ao verdadeiro Ministro da pasta: Mário Centeno.

As sondagens (e os bons resultados) por vezes toldam o discernimento político. Estamos, todavia, em crer que António Costa é um político suficientemente sagaz para perceber que a nova legislatura exige um novo ciclo político. A dúvida é sobre se optará por uma solução de continuidade (a subida de um/a secretário/a de Estado a ministro/a) ou se convidará alguém com peso político e/ou académico para a pasta da Educação, tão importante no discurso retórico mas tão subalternizada por Costa (e Centeno) na ação política concreta. A queda das despesas com a Educação aí está a não deixar dúvidas: em 2018, a previsão de 3,7% do PIB é mais baixa que nos tempos da troika, 4,2% em 2013, e muito longe dos 5% do governo de António Guterres.

Num exercício breve, importantes desafios se colocam nos próximos quatro anos.

O primeiro tem a ver com a universalização da educação de infância a partir dos 3 anos e o aumento rápido da oferta educativa (e social) para o período dos 0-3 anos, particularmente nos grandes centros urbanos (e suas periferias), contraditoriamente os mais despojados desses equipamentos educativos (e sociais).

O segundo diz respeito à educação de adultos, quase deixada à evolução demográfica e a visões que tudo reduzem a ‘recursos humanos’, despojando esta área das suas vertentes da cidadania ativa e das dimensões não formais da educação.

O terceiro reporta-se aos professores e à necessidade de se proceder à urgente renovação etária da profissão, o que implica resolver a questão da contagem de todo o tempo de serviço congelado.

O quarto desafio prende-se com a aprovação de um novo ordenamento jurídico da formação inicial de professores e educadores, que permita abertura às universidades e institutos politécnicos para, em conjunto com redes de escolas-residência associadas, concretizarem projetos de formação centrados na transformação das práticas profissionais. O quinto liga-se à urgência de se iniciar uma reflexão sobre o modelo de gestão escolar, que conduza a novas soluções (não necessariamente uniformes) onde a racionalidade administrativa se articule com as dimensões pedagógicas e participativas. O sexto, e último, desafio deve perpassar todas as políticas: agir em todos os campos que reforcem o caráter inclusivo e democrático da instituição escolar, tornando-a um importante meio de luta contra a desigualdade e a discriminação.

António Teodoro

Diretor do Instituto de Educação da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa

Fonte: SOL

Naturalmente, cego.


A cegueira ainda é vista na nossa sociedade como a “pior” deficiência que alguém pode ter. Quem não lida com esta limitação no seu dia-a-dia acha que a mesma é de tal forma incapacitante que condiciona o ato de ser feliz, daqueles que vivem esta situação na primeira pessoa ou na sua família próxima. Se perguntarmos a alguém qual é, de todas as incapacidades, aquela que não quereria mesmo ter, a resposta será certamente: ser cego. Mas o que será isto de ser cego para uma pessoa que nasce cega, ou perde a visão nos primeiros anos de vida?

Será que aqueles que podem utilizar o sentido da visão conseguirão avaliar de forma sensata o que é “não ver com os olhos?”.

Será que a visão é assim tão imprescindível para quem nunca a pode utilizar? Será que este mundo que as pessoas normovisuais conhecem é o mesmo mundo que as pessoas cegas percecionam?

Há alguns anos atrás a minha própria conceção sobre a cegueira era diferente da atual e talvez me inserisse no grupo de pessoas que achava que era a “pior” das deficiências. Contudo, há quatro anos a vida resolveu desafiar-me a ser mãe de um menino que, com apenas seis meses, ficou cego.

Perante tamanha fatalidade confesso que inicialmente o “meu mundo” desabou pois, na minha cabeça, era inconcebível que o “meu menino” não pudesse ver o mundo. Tanto que eu tinha para lhe mostrar… contudo, depressa percebi que o mundo do meu filho é muito mais do que o meu mundo e que afinal é ele que me ensina todos os dias a ver o que antes era para mim invisível. Foi também com o meu filho que percebi claramente que o ser humano tem uma capacidade inata de se adaptar a todas as situações e que as perceções de cada um são, simplesmente isso, perceções.

Há dois anos atrás, por esta altura, juntava-me a outras mães e pais de crianças cegas para iniciarmos o projeto de fundação de uma associação de pais, amigos e familiares de crianças, jovens e adultos cegos e com baixa visão. Essa associação nasceu em outubro de 2017 e chama-se Bengala Mágica. O trabalho desenvolvido é ainda “uma gota no oceano” de tudo aquilo que queremos fazer nesta área onde a “desinformação” é ainda uma realidade muito presente. Enquanto pais temos a missão de apoiar outros pais e familiares mas também profissionais que trabalham com pessoas com esta especificidade. Temos também a missão de ajudar a “naturalizar” a cegueira perante a sociedade e mostrar que as nossas crianças e jovens são “tão capazes” como quaisquer outros. A limitação não está nelas mas sim na sociedade em que vivem. De facto, não vivemos num mundo preparado para quem não vê (com os olhos) e isso obriga a um esforço permanente de adaptação por parte de quem é cego ou tem baixa visão. Um esforço de tal forma exigente que, para quem está de for, chega a ser “visto” como uma capacidade sobrenatural. Várias vezes me dizem, relativamente aos comportamentos do meu filho: “Ahh…. Ele é sobredotado!” ou… “ele ainda deve ver alguma coisa!” Na verdade, aquilo que impressiona as pessoas não é mais do que a capacidade inata que uma pessoa cega tem de viver com a condição que é a sua e de se adaptar ao mundo “imperfeito” em que vive. O que sinto é que seria muito mais fácil viver neste mundo imperfeito se ele não fosse construído, por todos nós, com base na perfeição ou, naquilo que se julga ser, a perfeição.

A Associação Bengala Mágica tem-me possibilitado conhecer adultos cegos e com baixa visão que não vivem “presos” à sua incapacidade e para quem a deficiência não é mais do que uma característica (pessoal) que, inevitavelmente os obriga a ser “todos os dias” eficientes na sua forma de viver mas que não os impossibilita de ter uma vida autónoma, independente e feliz. Do mesmo modo na minha vida, tenho contactado com pessoas que, não tendo qualquer deficiência (física, intelectual ou sensorial) têm outras características (pessoais) que não as deixam ser eficientes na forma de viver e, por essa razão, têm vidas que não desejam e onde se sentem infelizes.

A forma como cada um de nós está no mundo é sem dúvida a “chave” para VER o mundo e para VIVER nele. E aqui, a importância da atitude dos pais nos primeiros anos de vida das crianças com deficiência visual é fundamental para tudo o que vem a seguir. Como já referi, quando me deparei com a realidade da cegueira do meu filho o “meu mundo” desabou… porém, depois do tão necessário período de “luto” interior, veio o período de “aceitação” e de “transformação”. Transformar-me para poder ajudar o meu filho a crescer e a tornar-se uma pessoa “inteira” e de bem com a vida. Para tal tive, e tenho ainda, que agir com o meu filho com a maior naturalidade possível, estando também eu, de bem com a vida. Como canta Rui Veloso, “Nem Deus tem o dom de escolher quem vai ser feliz…”.

No meu dia a dia não me foco na deficiência do meu filho mas sim na pessoa que ele é e na forma como eu tenho que ser para o ajudar a encontrar o seu lugar no mundo. Tal como fazem todas as crianças desta idade o meu filho frequenta um jardim de infância, vai ao parque, vai ao supermercado, vai ao café, vai ao restaurante, vai ao mercado, vai à praia, vai à piscina, vai a casa dos avós, dos tios, dos amigos… enfim, vai onde tem que ir e fá-lo de forma completamente “normal”. A pouco e pouco as pessoas que convivem com ele foramse adaptando à sua forma de ver o mundo e aquilo que inicialmente era “assustador” é agora muito natural. Se pensarmos bem as crianças cegas apenas não têm um dos sentidos, contudo na falta deste podem rentabilizar ainda melhor todos os outros. Aqui está a forma como podemos dar a volta a esta situação que pode parecer altamente incapacitante. Se soubermos canalizar a informação, que normalmente as crianças recebem, de forma espontânea, pelo sentido da visão para os outros sentidos, estamos a ajudar a criança cega a construir a sua perceção do mundo que a rodeia. Quando escrevo “mundo” estou a referir-me a tudo, desde as pessoas, aos animais, aos objetos, aos ambientes, aos conceitos mais e menos abstratos… O importante é ir dando oportunidades de exploração à criança, não nos limitarmos apenas a descrever sem deixar que as crianças experimentem, sintam, vejam… Daqui advém a necessidade de dar a estas crianças muitas e diversificadas experiências pois é com base nestes momentos que constroem as suas imagens mentais e conceptuais. Nestes momentos de experimentação e exploração é importante deixar as crianças serem crianças e agirem como crianças. Sem medo, há que estar por perto mas não superproteger. Tal como qualquer criança, a criança com deficiência visual tem que cair para aprender a levantar-se, tem que dar cabeçadas para aprender a desviar-se, tem que sujar-se para aprender a limpar-se… gerir a ansiedade é algo que nós pais temos que aprender e para que seja mais fácil, mais uma vez, o importante é não nos centrarmos na limitação dos nossos filhos mas sim nas suas capacidades. Se nós conseguirmos deixá-los ser crianças felizes, eles vão conseguir ser jovens e adultos felizes.

A nossa postura enquanto pais é imprescindível para a formação dos nossos filhos mas também para a postura das outras pessoas em relação aos nossos filhos. Por vezes deparo-me com pessoas que não conheço e que se apercebem que o meu filho é cego. Na presença da dúvida ou perante um olhar curioso, costumo imediatamente dizer que ele não vê. Normalmente seguem-se comentários que demostram pena, compaixão, espanto ou até mesmo infortúnio, acompanhados de olhares de piedade e solidariedade. Imediatamente, procuro desmistificar este tipo de abordagem dizendo que ele é muito feliz e que a cegueira é apenas uma característica dele, infelizmente não a mais preocupante (a cegueira é decorrente de um tumor no sistema nervoso central). Outras vezes perguntam-me se é invisual ou ceguinho, quase a medo… ao que respondo de forma muito natural, não é ceguinho nem invisual, é apenas cego. Não vê com os olhos mas vê com todos os outros sentidos. Quem conhece o meu filho acaba por não se lembrar permanentemente que ele é cego, tal como não se lembra que tem cabelo castanho aos caracóis, que tem olhos castanhos, que tem quatro anos…

Para o meu filho ser cego é ainda algo que desconhece. Estou á espera do dia em que ele me pergunte o que é isso. Não sei se saberei responder mas já ando a ensaiar uma resposta. O mundo dele é assim, não conhece outro e, nessa forma de ver o mundo, sei-o feliz, inteiro, criança e pessoa. E sei também que o sentido da visão não lhe faz falta nenhuma.

Dídia Lourenço

Mãe de criança cega
Vice-Presidente da Direção da Associação Bengala Mágica associacao.bengalamagica@gmail.com