terça-feira, 15 de novembro de 2016
BENGALA BERNADETE
Metal, elástico, mãos habilidosas, e ela começa a surgir. É magrela, comprida e roliça, com uma proteção plástica na ponta que toca o chão. Primeiro, ela se encontra com outras iguais a ela.
— Você já sabe quem vai ser seu dono? — diz uma bem pequena.
— Ainda não, mas ouvi dizer que vamos viajar para longe. Estão montando as caixas em que vão nos embalar.
Todas estão excitadas, doidas para ganhar o mundo. Como bengalas que são, não querem ficar paradas; querem ganhar mundo, pois para isso foram feitas.
— Cada uma numa bolsa com outros materiais — diz o gerente aos operários.
Bernadete é colocada em uma bela sacola, depois de despedir-se das amigas. — Para onde será que elas vão? — pensa curiosa.
Na bolsa, durante a viagem, ela descobre amigos: dois punções e uma reglete, que servem para escrever; um tal de sorobã, que vive dizendo: «matemática é com o bom aqui!»; um pequeno engraçadinho, que tem o nome importante de «Guia de assinatura», mas que gosta mesmo de ser chamado de «assinador». Todos falam o tempo todo e estão doidos para trabalhar.
Chegando à mão do dono, que surpresa! Quando ele abre a bolsa e tira tudo de dentro, Bernadete descobre as amigas. Todas foram para o mesmo lugar. Eram vários jovens cegos, aliás, crianças ainda. Todos com bolsas cheias de materiais novos e curiosos para experimentar tudo.
— Legal! Minha bengala é do jeito que eu imaginei! — diz uma menina, tirando a sua bolsa e já testando como andar com ela — ela vai se chamar Bianca.
Os outros riram.
— Por que Bianca?
— Porque bengala tem que ter nome com B.
A brincadeira pegou, e nossa heroína foi batizada com o nome que já conhecemos: Bernadete.
Durante um tempo, ela ficou mais dentro da bolsa do que fora. Às vezes, quando o menino abria a bolsa para tirar punção, reglete ou sorobã, ela dava um impulso, saltava e se esticava toda. Todo mundo achava que era por causa do elástico novo, mas que nada. Era muita vontade que Bernadete tinha de correr mundo. Mas o menino a desarmava, dizendo:
— Caiu de novo.
E guardava outra vez. Quando ele ameaçava pegá-la realmente para ir a algum lugar, a mãe, ou o pai, ou a avó logo dizia:
— Guarda isso aí! Não precisa, eu vou te levar.
E lá ia Bernadete de novo para a bolsa. Já estava ficando deprimida. Pelas conversas que conseguia ouvir, sabia que suas amigas estavam andando por aí, vendo praias, parques, casas, entrando e saindo de ônibus, e ela não conhecia nada.
Um dia, no vestiário, depois da aula de natação, chegou o grande triunfo de nossa heroína. Seu dono foi informado de que não haveria a aula de informática por falta de luz, e um colega propôs:
— Por que, em vez de avisar em sua casa, você não vem comigo? Desço dois pontos depois da sua casa e posso te ensinar o caminho. Se você não fizer isso, nunca vão te deixar sair sozinho.
O colega tinha razão. Ele já tinha 18 anos e, apesar das insistentes conversas dos professores, os pais prometiam, mas não deixavam que saísse usando a bengala. Teria que ser no susto. Bernadete saiu da bolsa ardendo por trabalhar. O caminho era fascinante!: árvores, carros, muros, e ela ia ajudando o jovem a desviar de tudo.
— Que susto, menino! Como é que você veio parar aqui sozinho?! — perguntou a mãe quando o viu chegando.
— Sozinho não, mãe; com a bengala — disse ele se matando de rir.
Daquele dia em diante, Bernadete passou a trabalhar de verdade!: festas, casas de amigos, cursos, escola, banco, casa de parentes… Todos os roteiros se tornaram conhecidos para ela. Reviu amigas, conheceu outras colegas, entrou em buracos perigosos, de onde o dono a tirava com cuidado para que não quebrasse.
— Eca! « Caquinha de cachorro!» Era complicado desviar de tudo. Às vezes, ficava arrasada, quando o rapaz batia num orelhão, por exemplo, pois neste caso ela não podia fazer nada. Mas, com o tempo, aprendeu que isso era normal, fazia parte da vida, e que seu dono levava até com bom humor a situação toda.
O tempo passou e havia dias em que Bernadete ficava até cansada de tanto andar, mas não reclamava. Correspondia sempre da melhor maneira. Seu dono, agora, andava engravatado, frequentava tribunais e a guardava numa pasta elegante, mas não abria mão dela.
Um dia, conheceu outra bengala num canto de uma casa, onde estava rolando a maior festa e, pela maneira como seu dono e a dona da outra bengala chegaram rindo para busca-las, entendeu que ainda se veriam muitas vezes. Acertou. Durante três anos se encontravam muito, as duas, até que um dia passaram a viver na mesma casa, habitando a mesma prateleira do armário quando não estavam sendo usadas.
— Não confunda. Esta é a minha Bernadete. Ela tem nome desde que eu a ganhei — reclamou ele um dia quando a mulher quase pegou a bengala errada. Ele a reconhecia em qualquer lugar.
— Nem notei que ela era muito grande para mim — disse a moça rindo.
Depois de algum tempo, a responsabilidade de Bernadete aumentou: se ela falhasse, se não funcionasse a contento, o bebê podia cair dos braços do pai, ou da mãe que, às vezes, o marido conduzia, e ela levava isso muito a sério.
Um dia, porém, um acidente sério impediu Bernadete de continuar sua nobre tarefa: um buraco mais estreito, e a coitadinha ficou completamente torta.
— Vou comprar outra bengala! — disse o rapaz, decidido.
Bernadete entrou em crise. Achou que ia acabar no ferro-velho. Mas, quando a bengala nova chegou, o rapaz tomou uma decisão:
— Vou usar a nova, mas não vou me desfazer da minha primeira bengala. Foi com ela que me tornei independente. Ela me ensinou o quanto eu era capaz de andar sozinho. Preciso guardá-la.
Poucas vezes nossa personagem saía da prateleira; mas, quando isso acontecia, era para mostrar a algum dos filhos ou a quem conversasse com ele sobre autonomia e sobre sua vida, como Bernadete havia sido importante, e ela se sentia orgulhosa e valorizada.
FIM
Bernadete
autora: Professora Carla Maria de Souza, Instituto Benjamin Constant.
fonte: «Pontinhos» n.º 354, julho / setembro de 2015
'Pontinhos' é uma revista trimestral infanto-jovenil editada pelo Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro
autora: Professora Carla Maria de Souza, Instituto Benjamin Constant.
fonte: «Pontinhos» n.º 354, julho / setembro de 2015
'Pontinhos' é uma revista trimestral infanto-jovenil editada pelo Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro
Presidente aplaudiu as 'Mãos que cantam' em Belém
Presidente aplaudiu as 'Mãos que cantam' em Belém: O presidente da República recebeu em Belém a Federação Portuguesa das Associações de Surdos, aplaudiu o grupo 'Mãos que cantam' e anunciou vídeos dos seus discursos com tradução para língua gestual.
Sobre as contas da Educação...
Numa análise de Alexandre Homem Cristo, publicada no jornal (Observador), sobre as contas da Educação, que são discutidas esta terça na AR, destaca-se uma parte relativa à educação especial.
O que tem a dizer sobre o serviço de audiodescrição em Portugal?
A Unidade ACESSO do Departamento da Sociedade da Informação da FCT - Fundação para a Ciência e a Tecnologia pede a colaboração do público com necessidades especiais no preenchimento do questionário abaixo.
Questionário
A Unidade ACESSO do Departamento da Sociedade da Informação da FCT - Fundação para a Ciência e a Tecnologia pede a colaboração do público com necessidades especiais no preenchimento do questionário abaixo.
Questionário
terça-feira, 8 de novembro de 2016
terça-feira, 1 de novembro de 2016
Congresso Internacional Escola Inclusiva
Divulga-se o Congresso Internacional «Escola Inclusiva: Educar e Formar para a Vida Independente», que decorrerá na Casa das Histórias Paula Rego, Cascais, dia 3 de Dezembro.
Inscrições:
1 a 20 de novembro – 20,00€
21 de novembro a 2 de dezembro – 30,00€
1 a 20 de novembro – 20,00€
21 de novembro a 2 de dezembro – 30,00€
Inscrições através do email cercica@cercica.pt enviando os seguintes dados: nome, morada e NIF (para envio de fatura) e comprovativo de transferência bancária.
IBAN: PT50 0035 0734 00004216130 02
A conferência terá tradução bilingue (PT/EN) e língua gestual.
A conferência terá tradução bilingue (PT/EN) e língua gestual.
Programa:
08:30 – Registo dos participantes
08:30 – Registo dos participantes
09:30 – Mesa de abertura
• Secretário de Estado da Educação, João Marques da Costa
• Presidente da Câmara Municipal de Cascais, Carlos Carreiras
• Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, Artur Santos Silva (a confirmar)
• Diretor do Centro de Formação de Escolas de Cascais, José Marcelino
• Vice-Presidente da Direção da CERCICA, Rosa Maria Lucas Neto
• Secretário de Estado da Educação, João Marques da Costa
• Presidente da Câmara Municipal de Cascais, Carlos Carreiras
• Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, Artur Santos Silva (a confirmar)
• Diretor do Centro de Formação de Escolas de Cascais, José Marcelino
• Vice-Presidente da Direção da CERCICA, Rosa Maria Lucas Neto
10:15 – Conferência “Advancing Inclusive Education: Transformative Steps on the Path”
Gordon L. Porter, Inclusive Education Canada, Education Training Group, University of New Brunswick
Gordon L. Porter, Inclusive Education Canada, Education Training Group, University of New Brunswick
11:00 – Coffee break
11:30 – Conferência “Educação Inclusiva: resistir pela escola que queremos”
David Rodrigues, Associação de Professores de Educação Especial, Centro de Investigação do IE/UL, Conselho Nacional de Educação
Moderador: Pedro Cunha, Direção-Geral da Educação
David Rodrigues, Associação de Professores de Educação Especial, Centro de Investigação do IE/UL, Conselho Nacional de Educação
Moderador: Pedro Cunha, Direção-Geral da Educação
12:15 – Debate
12:45 – Almoço livre
14:00 – Conferência “Formação de professores para a inclusão”
Teresa Leite, Escola Superior de Educação de Lisboa, Conselho Nacional de Educação
Teresa Leite, Escola Superior de Educação de Lisboa, Conselho Nacional de Educação
15:00 – Painel “Escola Inclusiva de 2ª Geração”
Luísa Ucha, Secretaria de Estado da Educação - Grupo de Trabalho Escola Inclusiva
Manuela Tender, Assembleia da República - Grupo de Trabalho Educação Especial (a confirmar)
Moderadora: Filomena Pereira, Direção-Geral da Educação
Luísa Ucha, Secretaria de Estado da Educação - Grupo de Trabalho Escola Inclusiva
Manuela Tender, Assembleia da República - Grupo de Trabalho Educação Especial (a confirmar)
Moderadora: Filomena Pereira, Direção-Geral da Educação
16:00 – Debate
16:30 – Mesa de encerramento
• Vereador da Câmara Municipal de Cascais, Frederico Pinho de Almeida
• Diretor do Centro de Formação de Escolas de Cascais, José Marcelino
• Vice-Presidente da Direção da CERCICA, Rosa Maria Lucas Neto
• Vereador da Câmara Municipal de Cascais, Frederico Pinho de Almeida
• Diretor do Centro de Formação de Escolas de Cascais, José Marcelino
• Vice-Presidente da Direção da CERCICA, Rosa Maria Lucas Neto
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