quarta-feira, 28 de junho de 2017

A Grafia da Assinatura na Construção de Identidade das Pessoas Cegas


O projecto «assino em baixo» foi desenvolvido a partir da constatação de que algumas pessoas cegas, adultas, alfabetizadas e com diferentes níveis de escolaridade assinavam através da impressão digital. Estas pessoas são usuárias do Centro de Apoio Pedagógico às Pessoas com Deficiência Visual de Belo Horizonte. Para elas, as pessoas cegas que não assinam são tratadas como se fossem analfabetas e passam por situações de constrangimento no momento em que vão abrir uma conta ou solicitar uma abertura de crédito, ou quando não conseguem dar um autógrafo, assinar uma lista de presença, o comprovante de matrícula ou o diploma, assinar um contracto, entre outros actos de rotina.
 
O projecto 'assino em baixo' surgiu do desejo de ajudar um colega de trabalho, cego congénito, a assinar a folha manual de presença do servidor. Ele tem 36 anos, é auxiliar de biblioteca, frequenta a Faculdade de Letras e trabalhava na Biblioteca do Professor na Secretaria Municipal de Educação. Lá, ele usava a impressão digital para assinar mensalmente o registo de presença, o que me incomodava e a ele também. Em nossa primeira conversa, percebi que ele seria capaz de assinar e desejava muito aprender a escrever o seu nome completo. Assumimos este compromisso, estabelecemos uma disciplina de horário para nossa actividade e, assim, começámos...
Consultei o Instituto de Identificação e o Ministério de Educação, sobre as normas de validação de assinatura e rubrica com a intenção de orientar meu trabalho no sentido de respeitar os requisitos formais para fins de registo de identidade, reconhecimento de assinatura e documentação em geral. Assim, estudei a forma mais adequada de padronização da assinatura, uma vez que o nome e o sobrenome devem ser escritos por extenso, apenas os nomes complementares podem ser abreviados e a assinatura deve ser estável para ter validade legal.
Criámos uma assinatura condizente com estas normas e o meu colega passou a escrever dentro de uma "janela" (rectângulo confeccionado com papelão), utilizada com o objectivo de guiar o movimento das mãos, estabelecer limites para orientação e divisão do espaço.
Ao perceber que ele já estava escrevendo seu nome, utilizando o espaço de forma correcta e com um bom traçado das letras, passamos a utilizar uma janela menor. Assim, ele foi forçado a diminuir o tamanho das letras em relação ao espaço delimitado. No início, ele reclamou, disse que não conseguiria, mas em pouco tempo lá estava ele escrevendo dentro das novas dimensões e dos limites demarcados. Em menos de um mês, já conseguia assinar de forma legível e estável. A partir dessa experiência, passei a desenvolver o projecto com os utentes do CAP/BH.
Os primeiros  participantes do projecto constituem um grupo de 5 mulheres e 3 homens, cuja faixa etária é de 24 a 39 anos. Nasceram cegos ou perderam a visão prematuramente em consequência de catarata congénita e glaucoma. Entre eles, 5 são funcionários públicos municipais, sendo 2 professoras, 2 auxiliares de biblioteca e uma auxiliar de secretaria. Os demais trabalham de forma autónoma como músicos ou operadores de telemarketing. Entre os funcionários públicos, uma tem curso superior, um é estudante universitário e 3 têm o ensino médio. Os outros apresentam ensino básico e ensino médio incompletos. Todos foram alfabetizados por meio do Sistema Braille em uma escola de ensino especial durante o ensino básico.
O ensino da assinatura baseia-se em uma metodologia aberta, flexível e individualizada, por meio da qual se aprende a escrever o nome por extenso, a rubricar e a usar um marcador ou guia confeccionado para este fim. Consiste em uma interacção dialógica, centrada nos conhecimentos prévios, interesses, motivações e experiências individuais, na qual se valorizam a percepção táctil e a expressão corporal.
As actividades são definidas e modificadas dinamicamente, de acordo com as características pessoais, as manifestações e o desempenho do sujeito, o que consiste em um exercício de observação e criatividade para quem se dispõe a ensinar esta tarefa de forma atraente e não padronizada.
O trabalho é realizado duas vezes por semana durante uma hora, considerando-se os limites de resistência ou de fadiga em relação ao manuseio do material. Os sujeitos são estimulados a praticar a assinatura em suas horas livres, utilizando as grades  confeccionadas para este fim e com as quais já têm familiaridade.

O projecto tem como objectivos:
  • Substituir a impressão digital pela assinatura em tinta;
  • Estimular e promover a emancipação, autonomia e o sentido de privacidade;
  • Possibilitar o fortalecimento da confiança em si mesmo e auto-estima;
  • Respeitar a individualidade e exercer a capacidade de decisão.

Inicialmente, desenvolvemos actividades exploratórias com movimentos livres para  identificação e reconhecimento da posição do corpo, dos braços e das mãos. Percebemos o movimento da mão dominante e da mão guia em relação à coordenação e ao deslocamento de um ponto a outro da folha de papel ou de uma superfície plana qualquer.
As linhas rectas, quebradas e curvas são representadas por objectos e outras referências, tais como  a posição vertical, horizontal ou dobrada dos braços. Os primeiros traços ou rabiscos são feitos livremente em uma folha de papel com um lápis cera ou de carpinteiro, que é substituído ao longo do processo pelo lápis comum e pela caneta esferográfica. Introduzimos uma grade de papelão, confeccionada com tampa de caixa de sapatos, contendo um rectângulo central vazado de aproximadamente 20 cm X 3 cm, dentro do qual será grafado o nome completo do sujeito.
A compreensão das formas das letras se dá a partir do toque físico e da comparação  com as partes do corpo ou de objectos familiares. Assim, a letra "c" pode ser comparada com o formato da orelha ou com a curvatura dos dedos polegar e indicador. O círculo formado por estes dedos corresponde à letra "o", assim como o "n", ou o "m"  lembram as ondulações das mãos fechadas ou entreabertas. As letras maiúsculas e minúsculas do nome são confeccionadas com fio, arame flexível, papelão, cola em relevo, entre outros, para que o sujeito possa manusear os contornos, as semelhanças e diferenças entre as letras e  fazer a representação gráfica e mental.
Utilizamos uma sequência de cinco grades ou guias de papelão com pautas vazadas, cujas dimensões variam até atingir a extensão e largura mais adequadas para a grade de assinatura a ser padronizada. Podem-se  usar  também  como   guias cartões de banco sem validade, papel cartão, cartolina, entre outros, e para escrever lápis cera, lápis de carpinteiro, até alcançar a caneta esferográfica.
O desempenho do sujeito durante o desenvolvimento da assinatura é observado e avaliado continuamente em uma interacção recíproca, na qual ressaltamos os pontos positivos e aqueles que podem ser melhorados. O desenho das letras e os traços são examinados e confrontados com exemplos e modelos já conhecidos e esboçados anteriormente. Assim, reproduzimos em relevo o nome, tal como foi grafado, para mostrar através de referências tácteis, as letras e fragmentos que precisam ser aperfeiçoados. Esta representação em relevo é importante para espelhar as características e  os detalhes  da caligrafia que não podem ser visualizados.
Nessa avaliação, valorizamos a qualidade e o estilo da assinatura, procurando aperfeiçoá-la  cada vez mais até alcançar o  padrão estável que será adoptado. Os resultados são alcançados rapidamente, considerando-se que o tempo empregado nessa actividade tem sido de  8 a 20 aulas de uma hora. O sujeito  é considerado apto a assinar e poderá obter o novo registro de identidade, quando conseguir escrever seu nome com segurança.
O culminar do projecto dá-se com a obtenção de  um novo Bilhete de Identidade. Esse momento é aguardado com expectativa, insegurança, ansiedade e hesitação. Encorajamos o sujeito a escrever e reescrever seu nome em uma folha de papel até sentir-se preparado e à vontade para fazer a assinatura definitiva. Nesse acto, presenciamos diferentes reacções que vão de um gesto de alegria ao ímpeto de rasgar ou queimar o BI velho.
Em nossa observação durante o desenvolvimento do projecto, percebemos que o revisor de textos em braille do CAP/BH, depois que aprendeu a assinar, passou a anotar com um lápis as letras corrigidas na própria folha de revisão, o que facilita a interacção com os profissionais que fazem a transcrição e a adaptação de textos em braille. Uma vendedora de cosméticos quis aprender os números para registrar os telefones das clientes ou de pessoas que ligavam para sua casa e pediam que anotasse o telefone para alguém da família.
Anotamos algumas falas e comentários obtidos em conversas informais e depoimentos espontâneos que demonstram a mudança de status, o sentimento de pertença e de auto-estima.

1 - Auxiliar de secretaria, 23 anos, casada, mãe de 2 filhos, ensino médio. Considera que aprender a assinar é importante porque "Hoje em dia serve para tudo... Tendo um documento assinado posso ter conta corrente, cartão de crédito, fazer compras com o cartão, assinar o ponto, enfim exercer a cidadania".
Ela admite ter passado por situações constrangedoras quando foi fazer um empréstimo porque, depois de tudo preenchido, não podia assinar, ficando na dependência de terceiros. Ressalta que a assinatura vai mudar sua vida.

2 - Auxiliar de biblioteca, solista de uma banda de música, 34 anos, divorciada, tem dois filhos, ensino médio. Relatou que há muito tempo despertou nela o desejo de aprender a assinar e, às vezes, ficava triste por  ter uma formação, saber ler, escrever e,  no entanto, constar na identidade um "não assina".
Para ela, assinar significa ter mais independência, não precisar mais de um procurador, poder realizar coisas simples como  ter cartão de crédito, ter uma conta no banco, poder movimentá-la, assinar cheques, contratos de aluguer, dar autógrafos, assinar a folha de presença do trabalho... E o mais importante, assinar a matrícula do filho e os bilhetes que recebe da escola.
Numa conversa com o filho, ele diz todo feliz:
- "Agora, mamã, já podes assinar os meus bilhetes!... Eu vou te mostrar as letras baixinhas e altinhas"...
Ela diz:
- "Não vou precisar pedir à minha ajudante para assinar por mim!"

3 - Músico autónomo, 38 anos, casado, um filho, ensino básico incompleto. Para ele, assinar significa "ser igual aos outros, realizar o sonho de abrir uma conta corrente e conseguir financiamento para compra da casa própria". Contou que foi fazer um empréstimo na Caixa Económica Federal e foi-lhe dito, diante de todo o mundo, que não podia fazer porque não assinava.
Depois que aprendeu a assinar, resolveu formar palavras com as letras de seu nome e pedia ao filho de 6 anos para ler. Considera que mudou de status porque as pessoas agora o colocam nas nuvens e ele passou a ser visto como uma pessoa de muita inteligência. Na rodoviária de São Paulo, foi exigida a assinatura para compra de passagem no cartão de crédito. Como ele sabia assinar, conseguiu comprar a passagem. Comentou também que faz compras em diversas lojas e as pessoas ficam surpresas porque ele assina.
A partir da incorporação do projecto entre as actividades do CAP/BH, outros utentes manifestaram o desejo de aperfeiçoar a sua assinatura e despertaram a curiosidade e o interesse em aprender as letras do alfabeto e os números. Eles se sentem encorajados com a experiência dos outros e perdem o receio, pois a assinatura deixa de ser um tabu, já que as dificuldades são desmistificadas.
A importância do acto de assinar passou despercebida ou foi negligenciada durante a infância ou a juventude dessas pessoas, talvez pelo facto de ainda não se confrontarem com as exigências e responsabilidades inerentes à vida adulta. Além disso, elas conviveram e ainda convivem com a ignorância de quem vê e não acredita que sejam capazes de assinar ou de desempenhar outros actos corriqueiros. Para muitas pessoas, a escrita do nome em braille corresponde à assinatura. Para outras, basta a impressão digital. Existem, ainda, aquelas que se contentam com a escrita simplificada por meio de letra de forma.
O ensino da escrita cursiva em tinta para pessoas cegas é importante, seja para escrever o nome por extenso, reconhecer letras e números, ou formar palavras e frases, facilitando a comunicação com as pessoas que enxergam. A escrita do nome, de números e de pequenas anotações tem uma utilidade e uma função social que não deve ser subestimada. Por isso, o projecto ASSINO EM BAIXO vai além do simples acto de assinar, uma vez que  se repercute na vida do sujeito de forma abrangente, representando emancipação, independência, responsabilidade. A assinatura contribui significativamente para o fortalecimento da auto-estima, afirmação de identidade e legitimação da cidadania.

terça-feira, 27 de junho de 2017

DESENVOLVER COMPETÊNCIAS LINGUÍSTICAS RELEVANTES

A linguagem constitui um dos principais veículos de aprendizagem da criança com cegueira. Os conhecimentos adquiridos pela criança são, em grande parte, veiculados pela linguagem, já que a ausência de visão restringe a aprendizagem incidental e todas as dinâmicas de interação dependentes da visão.
Apresentamos, aqui, alguns dos aspetos que consideramos essenciais para o desenvolvimento comunicativo e linguístico da criança com cegueira:
  • Relações privilegiadas do recém-nascido com os principais prestadores de cuidados: Uma situação de cegueira poderá condicionar o recém-nascido na interação social com os principais prestadores de cuidados (Hatwell, 2003) e, por isso, os pais deverão investir no toque e no diálogo com o bebé.
  • Descrever todas as situações, gestos, expressões e ambientes  para que a criança apreenda o seu  meio envolvente.
  • Utilizar as experiências de vida da criança: São as experiências vivenciadas pela criança que vão permitir que se aproprie do seu contexto (Castellano, 2000). Nestas vivências, a criança deverá ter um “mediador” que lhe explique tudo o que toca e vivencia. Experiências significativas e de qualidade enriquecem o vocabulário compreendido e utilizado no discurso da criança (Koenig & Holbrook, 2002).
  • Explorar e experimentar objetos e atividades nas suas múltiplas dimensões: Quanto mais um conceito é abordado, nas suas diversas dimensões, maior e melhor se torna a sua compreensão (Rigolet, 1998). No caso de crianças com cegueira é fundamental a área do desenvolvimento de conceitos, sendo essencial que a criança perceba todas as suas dimensões. As experiências prévias e concretas ajudarão a criança a fazer a ligação com o que se verbaliza.
Um exemplo com Compota de Manzana, de Klaas Verplancke:
Explicar à criança como se faz uma compota de maça poderá ser uma experiência riquíssima ao nível da formação de conceitos e do desenvolvimento da linguagem. A experiência poderá começar no jardim com a apanha das maçãs da macieira (a árvore que dá as maças), que é tão alta, tão alta que só às cavalitas do pai as conseguimos alcançar…
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Na cozinha podemos conversar sobre as maçãs: a sua forma, cor, textura, cheiro… A criança poderá perceber que cortando a maça a mesma adquire novas formas …
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Na panela ao lume, a maçã transforma-se na compota juntamente com outros ingredientes. E, claro, podemos provar, diretamente da panela, e a criança apercebe-se de como está quente e como o cozimento alterou a textura da maça crua.
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No fim, poderá ser interessante ouvir uma história em voz alta ou explorar um álbum tátil ilustrado sobre a experiência prévia da criança. Em alternativa, podem, também, construir a vossa própria história recorrendo a objetos reais ou figuras representativas com texturas.
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Boas conversas, boas experiências e boas leituras!

Mais informações sobre este tema em: 

OUVIR HISTÓRIAS INDEPENDENTES DE IMAGENS E EXPERIÊNCIAS VISUAIS

Crianças  com cegueira beneficiam da leitura em voz alta, a mesma  traduz-se em escutar uma narrativa que seja independente de imagens e experiências visuais . O momento em que a criança escuta uma história  é um momento de partilha e de atenção individualizada que a criança, geralmente, aprecia. Em simultâneo, a criança reforça a linguagem e desenvolvimento de conceitos, e trabalha competências de atenção, memória e imaginação.
Para que a experiência seja agradável e significativa, considere os seguintes aspetos:
  •  Ler um livro com uma criança pequena deve ser divertido tanto para o adulto e criança.
  • Escolha um livro que se relaciona com as experiências da própria da criança ou procure elementos que ajudem a criança a situar a narrativa nas suas experiências.
  • É importante que a história seja rica em descrições e, ao mesmo tempo, cativante em termos de sonoridade e ritmo.
  • Utilize diferentes tons de voz e efeitos sonoros. Seja expressivo do ponto de vista corporal e sonoro.
  • Introduza fórmulas que sejam um convite à repetição em voz alta e envolvam a criança.
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Ilustração de Maurice Sendak, em “Urso Pequeno”.

Colónia de férias que ajuda crianças cegas precisa de apoio para voltar a acontecer

fonte: Expresso


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Em 2015, uma colónia de férias juntou crianças cegas e crianças sem deficiência visual num projeto pioneiro. Este ano já tem 20 crianças inscritas, mas precisa de apoio. A campanha de crowdfunding termina segunda-feira, dia 29. Há dois anos, a SIC acompanhou o projeto durante uma semana. Recuperamos aqui a reportagem depois distinguida com o prémio Dignitas e pela UNESCO.
O Expresso volta a publicar a Reportagem Especial da SIC de agosto de 2015 para ficar a conhecer o projeto Camp Abilities Portugal, que foi adaptado de um modelo americano de colónia de férias para jovens com deficiência visual.
Por cá, desde 2015 que crianças cegas e crianças que veem partilham, durante uma semana no verão, descobertas, desafios, medos e conquistas. A SIC acompanhou-as há dois anos e mostra-lhe que "Impossível é só um exagero para difícil".
Em 2017, a Associação AAMA (Associação Actividade Motora Adaptada) lançou uma campanha de crowdfunding para poder realizar a colónia de férias na última semana de Junho de 2017. Já estão inscritas 25 pessoas (10 crianças e adolescentes com deficiência visual entre os 11 e os 15 anos, 10 crianças e adolescentes normo-visuais e 5 coordenadores adultos), mas ainda não foi angariado o dinheiro suficiente.
O objetivo é alcançar 5 mil euros e o prazo termina dia 29 de maio. Caso queira apoiar esta causa, o nib da conta é PT 0033 0000 4548 2369 7710 5
Para saber mais sobre este projeto visite a página Camp Abilities Portugal e também a página do Facebook.


Filme "Antão, o Invisível" mostra como os cegos conseguem ver obras de arte

fonte: DN 


O filme "Antão, o Invisível", da dupla de realizadores Maya Kosa e Sérgio da Costa, galardoado com o Prémio Árvore da Vida no Festival de Cinema IndieLisboa 2017, mostra como os cegos podem "ver" obras de arte num museu.

O filme acompanha uma visita de deficientes visuais e auditivos, feita por técnicos do serviço educativo do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa, à obra icónica "As tentações de Santo Antão" (1505-1506), tríptico criado pelo pintor holandês Hieronymus Bosch.

Os visitantes cegos "não podem ver com os seus olhos, mas podem ver de outra maneira", disse à agência Lusa Adelaide Lopes, técnica do serviço educativo do MNAA, que participa no filme, descrevendo a obra a um grupo de cegos e a um jovem deficiente cego e surdo, através da linguagem escrita nas mãos.

"Os seus sentidos estão lá, e têm a mesma capacidade de sentir, de descobrir, de refletir, e de pensar sobre as coisas. Chegam lá por outro caminho, mas têm essa possibilidade e essa capacidade", sustentou, em declarações à agência Lusa.

Sobre o filme "Antão, o Invisível", Adelaide Lopes considera que os realizadores Maya Kosa e Sérgio da Costa, "perceberam e conseguiram transmitir a importância dos serviços educativos dos museus, e o seu esforço para que as pessoas possam aceder a todos os espaços culturais".

"Eu posso ajudar a descobrir o que lá está [na pintura], mas as pessoas têm a liberdade de o fazer pessoalmente, e o filme mostra isso. Cada pessoa, mesmo deficiente, tem o direito ao seu usufruto pessoal, e à sua interpretação de uma obra de arte", considerou.

A responsável recordou que os visitantes do Museu Nacional de Arte Antiga com limitações visuais ou auditivas, ou outras deficiências, são acolhidos pelo serviço educativo desde 1953, altura em que foi criado.

Ali são recebidos grupos de escolas, pais, educadores e, para os deficientes com visibilidade reduzida, existem materiais específicos, em Braille, alguns relevos para tocar, sobre peças da coleção do museu.

"Os recursos são reduzidos, mas tentamos que sejam reforçados, para dar a conhecer mais obras", disse à Lusa, acrescentando que os pedidos de pessoas individuais, ou em grupo, portugueses ou estrangeiros, são sempre atendidos.

Adelaide Lopes referiu que, "muitas vezes, as escolas não dizem que têm alunos deficientes, porque têm receio de não ser atendidos, ou, por vezes, o professor não informa o museu".

"O filme é muito importante para divulgar o trabalho que os museus fazem com os visitantes deficientes, e para quebrar certos tabus. Por vezes as pessoas não sabem, acham que não é possível, ou têm medo", apontou.

Nesta linha, defende que "as pessoas deficientes devem ter acesso a todos os espaços culturais, sejam museus, cinemas, teatros, para usufruir da criação artística, tão importante nas nossas vidas".

O Prémio Árvore da Vida do Festival IndieLisboa foi entregue ex-aequo a "Antão, o Invisível", de Maya Kosa, Sérgio da Costa (Suíça, Portugal) e a "Num Globo de Neve", de André Gil Mata (Portugal).

Dieta Mediterrânica em braille


Como nota introdutória de uma divulgação emitida pela Direção Regional de Agricultura e Pescas (DRAP) do Algarve, é referido que em Portugal, estima-se que existam “cerca de 900 mil cidadãos com dificuldades de visão. Destes, cerca de 28 mil são pessoas cegas. A estas pessoas que não conseguem ver, mesmo com ajuda, teremos de juntar muitos outros milhares de pessoas com muito baixa visão”.
Assim, estes portugueses e suas famílias, para além das dificuldades físicas e económicas, nomeadamente uma proporção muito elevada de desemprego (75% das pessoas cegas na União Europeia estão desempregados), discriminação e mobilidade, permanecem também sob riscos aumentados de saúde.
Apesar de serem poucos os trabalhos científicos sobre o assunto a nível global, segundo a DRAP Algarve, “pensa-se que a proporção de crianças e adolescentes com deficiência visual que desenvolveram obesidade ou pré-obesidade varie entre 18,4% e os 63%, valores acima da média quando comparados com crianças sem problemas de visão”.
“Assumindo que as crianças e adolescentes com deficiência visual são mais propensos a desenvolver obesidade, talvez resultado de dificuldades em fazer uma alimentação mais saudável ou dificuldades em participar em atividades comuns de atividade física, é importante dar atenção redobrada a este grupo vulnerável e muitas vezes esquecido” – sublinha a DRAP Algarve.
Contudo, a informação de qualidade sobre alimentação saudável destinada a pessoas com deficiência visual é ainda muito escassa ou praticamente inexistente em Portugal. Por isso, o Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS) da DGS lança o primeiro documento em braille e leitura aumentada sobre Dieta Mediterrânica.
Tanto mais que a “Dieta Mediterrânica” é “um modelo alimentar que tem por base produtos vegetais, o azeite como gordura principal e métodos de confeção simples, recorrendo a alimentos da época, de proximidade e frescos. Este modelo alimentar saudável foi declarado Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO e, desde então, Portugal tem a obrigação de protegê-lo através de diversas medidas de salvaguarda. Desta forma, o PNPAS contribui também para a sua divulgação na comunidade das pessoas com deficiência visual”.
O texto agora produzido em braille com o apoio da ACAPO – Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal e que será distribuído aos seus associados, reproduz os princípios alimentares da Dieta Mediterrânica, esperando que este seja o primeiro de outros passos destinados a melhorar a saúde alimentar deste grupo da população.
A terminar, é referido que o PNPAS insere este documento na sua missão e estratégia de “informar e capacitar para a compra, confeção e armazenamento de alimentos saudáveis, em especial nos grupos mais desfavorecidos” onde já produziu diferentes documentos e ferramentas pedagógicas destinadas a grupos mais frágeis da população.

A genialidade de um pianista que só conseguiu ser criança depois de cegar

fonte: http://www.Diário de Coimbra


 
fotografia de Jorge Gonçalves


Os aviões a descolar da base aérea de Tancos são ainda imagens bem reais guardadas nas memórias de Jorge Gonçalves, tal como as cores ou o formato dos telhados. Recordações dos tempos de menino, dos tempos em que um glaucoma congénito o obrigava a visitas regulares ao hospital e lhe causava dores de tal maneira insuportáveis que Jorge não tem dúvidas em afirmar que a sua infância só começou «depois de perder a visão». Tinha cinco anos e 10 meses. A partir daí, «foi quando pude ser criança, quando pude brincar, sem dores, quando pude fazer asneiras», revela, numa conversa ao piano, com direito a alguns momentos musicais. «O meu problema tinha uma característica muito desagradável: o sol parecia que tinha facas. Por isso, eu brincava debaixo da cama, porque assim não tinha luz», adianta, hoje com 34 anos, recuperando aquele espírito de criança que viveu quando deixou de ver.