sexta-feira, 28 de outubro de 2016

A trabalhar o halloween




Dia das Bruxas (Halloween é o nome original na língua inglesa) é um evento tradicional e cultural, que ocorre nos países anglo-saxônicos, com especial relevância nos Estados Unidos, Canadá, Irlanda e Reino Unido, tendo como base e origem as celebrações dos antigos povos, sendo que não existe ao certo referências precisas de onde surgiram essas celebrações.

Para assinalar esta data escolhemos a história Malvina, a bruxa malvada. É uma das histórias do maravilhoso mundo infantil criado por Miguel Borges Silva.
Para consultar este autor

Sinopse da história
"A pequena Malvina sonhava ser uma bruxa poderosíssima e malvada, respeitada e temida por todos, incluindo as outras bruxas. Sonhava ser a presidente da assembleia da Maléfica Ordem das Bruxas, um cargo de alta responsabilidade e ambicionado por todas as jovens bruxas. […] Mas cá para mim, que ninguém nos ouve, não tinha jeito nenhum para bruxa malvada..."

E para finalizar docura ou travessura?? Docura claro! Fizemos uns "doces sustos" de fantasminha chupa-chupa.


Governo compromete-se a incluir livros para invisuais no Plano Nacional de Leitura

A secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência, Ana Sofia Antunes, comprometeu-se nesta sexta-feira, em Coimbra, a incluir livros em braille e de leitura tátil no Plano Nacional de Leitura (PNL), embora sem assumir datas.


"Comprometi-me a começar agora a reunir para ver como vamos incluir [aqueles livros no PNL] e havemos de conseguir", disse a governante, no final da sessão solene das V Jornadas Deficiência Visual e Intervenção Precoce, que decorreram no Hospital Pediátrico de Coimbra.


A promessa de Ana Sofia Antunes acabou por ir ao encontro do desafio lançado pelo presidente da Associação Nacional de Intervenção Precoce (ANIP), Luís Borges, que apontou duas falhas no PNL: o facto de não abranger crianças invisuais e de não abranger as crianças em idade pré-escolar.


Fonte: Público

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Afonso, Alexandre e João são “meninos especiais” com histórias em papel | P3

Afonso, Alexandre e João são “meninos especiais” com histórias em papel | P3: Cada livro da colecção “Meninos Especiais” conta a história de uma criança com necessidades especiais. O Afonso tem um atraso global de desenvolvimento. O Alexandre tem síndrome de X frágil. O João ainda não tem diagnóstico. Escritores e ilustradores foram desafiados a conhecer estes meninos e a entrar nos seus mundos reais

Nunca vi os meus filhos

fonte: Visão

Foi num lar para raparigas cegas, onde trabalhou, que Helena aprendeu a descascar batatas e a fazer tudo o resto sozinha na cozinha
Foi num lar para raparigas cegas, onde trabalhou, que Helena aprendeu a
descascar batatas e a fazer tudo o resto sozinha na cozinha. Foto: Marcos Borga

Ter pais que não veem é estranho para quem não passa por isso. De início, as perguntas não se fazem esperar, acabando todas por ir parar à mesma dúvida: "Como é que os vossos pais fazem as coisas?" A resposta não podia ser mais simples "fazem como faríamos de olhos fechados." Mas claro que tem mais que se lhe diga.
A jardineira está quase pronta e a mesa para o jantar posta quando Marta e Márcia começam a contar o que ouviram ao chegarem à nova escola. Nos primeiros dias, os colegas disparavam perguntas: Quem é que cozinha lá em casa? A mãe consegue comer sozinha, pentear-se, escolher a roupa? E o pai trabalha em quê? "De início, estranham muito", conta Marta, a mais espevitada das gémeas, de 12 anos. "É sempre: 'Como é que os vossos pais fazem as coisas?' Numa das vezes, respondi: 'Experimenta passar o dia todo de olhos fechados e já sabes'." Na cozinha do apartamento na Pontinha, nos arredores de Lisboa, para onde Helena Cristina e José Manuel foram ao casar, em 1999, sente-se um cheiro delicioso agora que a carne de vaca ficou tenra depois de a panela de pressão se engasgar. Os silvos tinham acompanhado os últimos minutos dos trabalhos de casa, feitos na sala, sem nunca se sobreporem à voz pausada de José Manuel. Marta treinava a pronúncia em Francês e Márcia despachava exercícios de Matemática com a ajuda do pai. "Dois vezes três ao quadrado é doze, filha? Pensa melhor..." Márcia, de grinalda na cabeça assumidamente para a fotografia, poderia seguir uma carreira na moda mas já se decidiu pela Medicina.

Embora vá fazendo figuração em telenovelas tal como a irmã, que sonha ser atriz, agarra-se aos estudos para gozo de José Manuel, que venceu umas Olimpíadas de Matemática no 12.º ano e hoje dá formação na área, na Acapo (Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal).
 
VER A TELENOVELA A QUATRO
Os estudos são uma prioridade nesta casa, conclui-se ao ouvir Helena e o marido contarem à vez que terminaram cursos superiores com grande sacrifício, ela de Gestão de Recursos Humanos e Organização Estratégica, ele de Psicologia. Das filhas não esperam menos do que licenciaturas porque sabem que não lhes falta cabeça e eles cá estão para lhes criar as oportunidades. "Mesmo para seres atriz, Marta", lembra Helena, quando se sentam os quatro a ver Amor Maior, a novela da SIC em que as miúdas hão de aparecer, "vais estudar muito." [Helena e José Manuel gostam de televisão. Distinguem as vozes, imaginam as cenas, e só pedem ajuda às filhas quando há um momento mais silencioso.] Helena sempre acreditou que é importante ter um diploma. Ao fim de vários anos a tentar engravidar, pensou na adoção mas, antes de avançar, quis ir para a universidade.

"Achava que dificilmente me deixariam adotar e que seria menos problemático se fosse licenciada." Nascera com apenas 10% de visão, por causa de uma retinose pigmentar (degeneração progressiva da retina) e agora já só vê contrastes e vultos. Conhecendo a sociedade portuguesa, haveria poucas hipóteses de a considerarem elegível. E não ajudava o facto de o marido ser também ele cego.

Quando decidiram ser pais, os dois fizeram testes genéticos que não foram conclusivos. Mas, mesmo que a criança nascesse sem problemas de visão, o facto de ambos não verem quase nada era suficiente para ouvirem repetidamente a frase "É melhor não terem filhos." Só quando Helena ficou grávida de gémeas, no final do 1.º ano do curso, tudo mudou. "Face ao facto consumado, as pessoas apoiaram a nossa decisão; se não desisti da faculdade foi porque os meus colegas me incentivaram." Doze anos depois, Marta e Márcia provam que os medos eram injustificados. As duas pré-adolescentes oferecem-se para ajudar nas tarefas domésticas e não deixam nada desarrumado para que os pais não tropecem em alguma coi- sa, mas, de resto, são iguais a tantas outras, com as vaidades, inseguranças e manhas típicas da idade.

"Por enquanto, ainda têm muito que aprender para me enganarem", ri-se Helena, depois de contar que sabe logo o que andam a fazer as filhas quando ficam caladas. "Estão no telemóvel ou a ver televisão sem som, há sempre algo que as denuncia."
Não servirá este artigo para se concluir que tanto faz os pais verem ou não, mas a maioria das vezes conseguir levar a bom termo a dupla tarefa de criar e educar é sobretudo uma questão de adaptação. Nunca o dito popular "A necessidade faz o engenho" se aplicou tão bem, pensámos quando Helena, José Manuel, Sara, Lurdes, Isabel e Paulo partilharam alguns dos truques a que recorrem no dia a dia.

Pedir para alguém fazer marcas com cortes nas seringas para evitar enganos nas dosagens dos medicamentos foi um dos que surgiu logo no início das entrevistas. Pelo caminho aprendemos também que existem balanças de cozinha falantes ou aparelhos que identificam as cores. E que a memória ainda é a grande aliada de quem não vê uns laços nas mangas de uma camisa e, bingo!, na loja alguém disse que esta é branca.

Sempre que pode, Sara enfia a filha no canguru e dá um pequeno passeio nas imediações da sua casa, na Azambuja
Sempre que pode, Sara enfia a filha no canguru e dá um pequeno passeio
 nas imediações da sua casa, na Azambuja. Foto: Marcos Borga

Sempre que tem dúvidas, Sara Tadeu usa o seu Colorino para confirmar a cor da roupa que vai vestir a Luana, 1 ano acabado de fazer.

"Gosto que ela ande sempre arranjadinha", diz. O aparelho, que parece um pequeno comando de televisão e diz em voz alta as cores, também é útil quando hesita na cor de uma sombra de olhos. Nasceu com a visão muito limitada porque a mãe contraiu rubéola durante a gravidez, mas ainda viu cores e sombras até aos 23 anos e hoje continua a adorar maquilhar-se.

Antes de enfiar a filha num canguru para ir com ela até um jardim perto de casa, na Azambuja, Sara demora-se ao espelho a aplicar contorno do rosto e iluminador. Escolheu uma saia e uma blusa bege, "discretas, para a fotografia", e há de sair de bengala branca aberta e saltos altos. Faz tudo como sempre fez quando via alguma coisa; só precisa de ajuda para ir e vir do trabalho (dá apoio psicológico aos trabalhadores da Jerónimo Martins), por falta de transportes.

Quando pensou que estava na hora de ela e o marido, Hadiley, que é amblíope, serem pais, sabia ser um ato de coragem. Não se lembrou de que moravam num 2.º andar e que iriam ter de manter as janelas apenas entreabertas e tapar as tomadas do apartamento, mas assustou-a a falta de autonomia porque não têm familiares na vizinhança e nenhum pode conduzir.

Hadiley trabalha longe, na CUF Descobertas, e é federado do Sporting (pratica goalball, uma modalidade criada para cegos). Entre o trabalho e o desporto passa muitas horas fora de casa. Sempre que está sozinha com a filha, Sara não se aventura mais longe do que a loja de congelados da esquina; para ganhar alguma independência, já decidiu que, mal Luana comece a andar, vai comprar "uma daquelas trelas que os estrangeiros usam".

VENHAM DAÍ OS CARROS DA GOOGLE
A locomoção é uma dor de cabeça para a maioria destes pais.
Helena e José Manuel, outra vez eles, compraram um carro em segunda mão e pediram a uma vizinha para levar e trazer as gémeas da escola. Mas todos os outros entrevistados viram-se obrigados a adaptar as rotinas depois de terem filhos, quase sempre incluindo mais horas de transportes públicos.

OS OUTROS E O MEDO DE FALHAR

Aos 13 anos, Alexandra já seria capaz de ir sozinha para casa, mas Lurdes faz questão de ir buscá-la todos os dias ao colégio
Aos 13 anos, Alexandra já seria capaz de ir sozinha para casa, mas Lurdes
faz questão de ir buscá-la todos os dias ao colégio. Foto: Marcos Borga

Lurdes Dias, Lu, chegou ao cúmulo de escolher o colégio da filha pela proximidade ao seu local de trabalho. O substantivo é nosso porque, para esta telefonista quase licenciada em Ciências da Comunicação, nada mais natural do que a prioridade ser a localização, à boca de uma estação de metro. "Defendo a escola pública, mas tive de optar pelo privado por causa da minha dificuldade de locomoção", há de confessar, de olhos azuis muito abertos, numa esplanada de um café no centro de Lisboa.

Aos 13 anos, Alexandra já seria capaz de ir sozinha para casa, mas Lu gosta de lhe fazer companhia e aproveitar a viagem para conversar com a filha. Apanham o metro até ao interface do Campo Grande e, daí, uma camioneta que as leva até à zona de Camarate e isto todos os dias da semana, a não ser que Manuel, que não tem qualquer deficiência visual, lhes possa dar boleia.
Lurdes e Manuel conheceram-se quando eram adolescentes, numa colónia de férias. Aos 18, começaram a namorar e, entre o início do namoro e o casamento, ela começou a perceber que ia ficar cega.

Manuel sabia ao que ia. Sabia que Lu nascera com glaucoma congénito e só fizera uma vida escolar normal até ao 9.º ano. Daí para a frente, tudo se complicou, mas ainda conseguiu entrar na universidade. Só que há vinte e tal anos a tecnologia estava muito atrasada ainda não se encontravam disseminados programas de computador de voz, por exemplo.

Manuel também sabia que a futura mulher não tinha vontade de ser mãe pelo medo de pôr no mundo uma criança que pudesse vir a sofrer o que ela sofrera. "Não queria que um filho meu travasse as lutas que eu travei e travo", justifica Lurdes. Mas ele queria tanto ser pai que avançaram depois de os testes genéticos concluírem que tinham as mesmas hipóteses de um casal sem qualquer deficiência.

Lu nunca chegou a ver a cara de Alexandra porque estava completamente cega ("já nem via luz") quando ela nasceu. Aceitou isso bem, mas sentiu "a insegurança habitual de uma mãe de primeira viagem" aumentada pelos comentários de quem a rodeava. "As pessoas perguntavam-me muito como é que eu ia ser capaz, e só por causa dessa pergunta fiquei com medo de falhar", recorda.

Se de início ganhou fobia às fraldas com cocó porque receava não limpar bem a filha, a primeira vez que lhe deu papa foi épica. "Com uma mão tentava ver onde estava a boca e com a outra fazia pontaria com a colher. O processo está fotografado: vê-se papa por todo o lado menos na boca dela", ri-se, hoje. E quando Alexandra começou a andar, arranjou um truque para perceber rapidamente onde estava: "Prendia um pequeno guizo à fralda, como os gatinhos!", goza. "Agora, parece ridículo, mas na altura deu-me muito jeito." Entretanto, foi treinando o ouvido e ficando mais atenta às traquinices da filha, a quem lembrava constantemente que não via. Comer bolachas às escondidas era mato Lurdes já disfarçava a vontade de rir mas a miúda quase morreu de espanto um dia em que estavam a acampar, entrou calçada na tenda e a mãe ralhou porque sentira areia no chão. "Mas tu não és cega?!" Sim, Lurdes é cega e faz questão de andar sempre de bengala aberta e de ser ela a conduzir a filha, embora nos últimos anos já lhe peça informações. "Ensinei-lhe a solidariedade e o espírito de entreajuda porque, tal como eu, há muitas outras pessoas condicionadas."

AJUDAR O PAI A ESTUDAR
 
Rui gosta de aprender os caminhos para poder ajudar os pais, ambos cegos
Três vezes por semana, Paulo e Isabel tentam assistir ambos ao treino de
 futebol do filho. E, ao fim de semana, não perdem o jogo. Não conseguem
 ver o que se passa no campo do Sportivo de Loures. Foto: Marcos Borga

Uns dias antes, ao vermos Rui chegar ao campo de futebol relvado do Grupo Sportivo de Loures, onde treina três vezes por semana, tínhamos fixado a maneira segura com que encaminhara os pais para a bancada, um de cada lado. "Comecei cedo a tentar fazer o melhor para que não batessem em coisas e para os ajudar", conta.
Rui era muito pequeno quando teve a noção de que Isabel e Paulo eram cegos. Com um ano e pouco, já apanhava a chupeta do chão se os via à procura, e pegava-lhes na mão para mostrar alguma coisa que queria. Agora, aos 12 anos, sabe todos os caminhos e habituou-se a descrever aos pais o que acontece à sua volta.
Como passam a melhor parte do dia longe os pais trabalham em Lisboa, ela na Fundação Portugal Telecom, na área da responsabilidade social, e ele nas Finanças, como inspetor tributário, valoriza os tempos a três. Gosta que assistam aos treinos e ao jogo de futebol semanal, e, em casa, oferece-se para dividir tarefas. Nos últimos tempos, dá-lhe gozo recortar e colar notícias da época em que o pai era atleta paralímpico (correu os mil e os 5 mil metros pela última vez em Atenas, em 2004).
Quando Paulo leva trabalho para casa, ajuda a conferir a papelada, e, se o pai tem de estudar, pergunta-lhe a matéria. Ter filhos fazia parte do projeto de vida de casados de Isabel e Paulo.
Como ela tem retinose pigmentar e ele glaucoma, duas doenças hereditárias, fizeram testes genéticos. O resultado 50/50 levou-os a avançar. "Se nos dissessem que era muito provável um filho nosso vir a sofrer de alguma das nossas doenças, se calhar não arriscávamos", admite Isabel. "Mas felizmente tivemos sorte, o Rui saiu bem." Quando entrou na escola, os professores estranharam de início mas foi só porque já sabia ler quase corretamente. Tinha-se posto a copiar para o computador os nomes dos jogadores dos cromos de futebol e o software de voz fez o resto. Ser filho de cegos não é obrigatoriamente uma desvantagem.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

sobre a notícia “As novas regras da Educação Especial”

O Jornal Diário de Notícias lançou hoje uma notícia sobre “As novas regras da Educação Especial”. São aguardadas, já há algum tempo, as alterações ao Decreto-Lei 3/2008 de 7 de Janeiro fruto da análise sobre os problemas sentidos na concretização desta legislação e às intervenções de vários profissionais da área que têm tido oportunidade de identificar problemas e expressar as suas sugestões.
Na notícia podemos ler, mais do que medidas concretas, algumas diretrizes sobre estas alterações. O Ministério da Educação vai criar novas regras para o ensino especial que passam, por exemplo, por criar planos específicos para estes alunos quando as abordagens tradicionais falham ou obrigar as escolas a incluí-los mais tempo nas salas de aula com os restantes colegas
Aponta como objetivos “(…)centrar na escola” e na sala de aula o trabalho com os alunos, num trabalho “multidisciplinar, envolvendo família, professores e técnicos”, que permita, por exemplo, “caso as abordagens convencionais não resultem, elaborar planos específicos para cada aluno”.
Realça também a necessidade de reafirmar a não extinção de Unidades de Apoio Especializado; “Ao DN, o Ministério da Educação garante também que “nunca” esteve em cima da mesa a extinção destes serviços. Mas admite que está em discussão “a necessidade de existirem respostas mais flexíveis do que a simples colocação de alunos nas unidades de apoio especializadas, melhorando o leque de respostas inclusivas.”
Refletindo sobre estas diretrizes não posso, de uma forma geral e num patamar teórico, estar mais de acordo. Não obstante (sendo esse sempre o meu receio neste e em todos as outras áreas) fico apreensiva à forma como vai ser lido e operacionalizado pela comunidade escolar.
Vejamos alguns pontos e algumas perguntas que ficam no ar:
– A necessidade de planos específicos para alunos é fundamental e estes devem ser estruturados aliando professores do ensino regular e professores de educação especial, tendo em conta uma avaliação rigorosa do perfil de funcionalidade de cada aluno. Terão estes planos o objetivo de responder a um vazio entre as medidas “Adequações curriculares individuais” e“Currículo Específico Individual” criando alterações ao currículo, mas não inviabilizando a progressão de estudos?
– As unidades especializadas são indispensáveis para a realização, com técnicos especializados, de um trabalho mais específico de base e por vezes complementar às aulas de ensino regular. E por isso o seu valor não pode ser descurado. No entanto o que não pode ser legítimo é a permanência quase total de muitos destes alunos nestas unidades.
O “ainda” atual ciclo tem de ser quebrado. Os meninos com Necessidades Educativas Especiais não pertencem apenas ao Departamento de Educação, pertencem à escola e a sua evolução depende de todos os protagonistas educativos. Cabe à escola, ter sim, a autonomia necessária para avaliar o perfil de funcionalidade de cada aluno NEE e definir, em conjunto, as melhores respostas. E uma das melhores repostas, pode ser sim, uma maior permanência junto dos seus colegas de turma.
No entanto para que esta resposta possa existir, não podemos descurar a aplicação da lei (que continua a não ser respeitada) que indica um máximo de 20 alunos por turma (redução de turma) para casos onde os comprometimentos de alunos com NEE nas atividades e participação assim o justificam. É que ter 20 e 30 alunos, em qualquer situação, não é a mesma coisa.Algo que num passado próximo parecia ser indiferente.
3 – Por último e porque ainda aguardamos diretrizes mais específicas, quero de novo salientar as muitas críticas feitas ao conceito de Inclusão.
Crianças com Necessidades Educativas Especiais existem e sempre existirão. Todos nós, enquanto sociedade, com os nossos comprometimentos e especificidades somos todos cidadãos com direitos e deveres. Ponto assente.
A escola produz sociedade e tem como objetivo preparar os futuros cidadãos valorizando as suas áreas fortes e trabalhando as áreas fracas e todos temos um papel neste processo. Todos. E é a partir deste mindset que todos devemos operar.
No entanto (e sei que existem vozes dissonantes da minha) considero que tendo em conta o nível de comprometimento do aluno se deve avaliar, conjuntamente, outras opções complementares na comunidade envolvente. Estas opções devem existir e continuar a existir porque permitem uma resposta em casos extremos. Porque falar de inclusão é falar de aceitação e respeito pelas características individuais de cada um. E quando uma escola não apresenta condições e estrutura para respeitar essas caraterísticas, em nenhum momento estamos a incluir mas sim a desrespeitar essas especificidades forçando uma inclusão “para parecer bem”. E não há pior Inclusão do que esta.

Fazer da língua gestual portuguesa a segunda do país: uma mudança há muito esperada | P3

Fazer da língua gestual portuguesa a segunda do país: uma mudança há muito esperada | P3: Números escassos, alguns avanços e muito por fazer. Pedro Costa, presidente da Federação Portuguesa das Associações de Surdos, traça um retrato das preocupações e desafios enfrentados pela comunidade

domingo, 23 de outubro de 2016

Governo vai mudar regras da educação especial

O Ministério da Educação vai criar novas regras para (...) [a educação] especial que passam, por exemplo, por criar planos específicos para estes alunos quando as abordagens tradicionais falham ou obrigar as escolas a incluí-los mais tempo nas salas de aula com os restantes colegas. A chamada "escola inclusiva 2.0" é uma reforma ao decreto-lei 3/2008, que regula a educação especial desde há quase uma década, e tem como objetivo garantir uma "escola em que as crianças não estão apenas integradas, mas incluídas em sala de aula, em ambiente de aprendizagem com os colegas, sem desinvestimentos nos apoios necessários", adiantou (...) o secretário de Estado da Educação, João Costa.

Na prática, explica Luísa Ucha, coordenadora do grupo de trabalho que deverá em novembro fazer chegar ao governo as propostas de alteração legislativa, o objetivo é criar abordagens "que permitam a cada aluno atingir o seu potencial". Isso passa por "centrar na escola" e na sala de aula o trabalho com os alunos, num trabalho "multidisciplinar, envolvendo família, professores e técnicos", que permita, por exemplo, "caso as abordagens convencionais não resultem, elaborar planos específicos para cada aluno". Passa também pela redução do tempo passado por alunos com necessidades educativas especiais nas chamadas "unidades especializadas", que foram criadas para facilitar a integração destes estudantes no ensino regular. Novidades que surgem numa semana em que o Centro de Apoio ao Desenvolvimento Infantil - CADin debateu problemas de desenvolvimento como o espetro do autismo e a hiperatividade e défice de atenção, numa conferência que termina hoje em Lisboa, no ISCTE.

Numa altura em que cerca de 70 mil alunos com Necessidades Educativas Especiais (NEE) estão integrados nas escolas regulares, sendo já residual o número de estudantes em escolas especiais, o peso dado por muitas escolas a estas unidades tem sido motivo de críticas. Por exemplo, num relatório sobre Portugal divulgado em abril, o Comité da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência contestou o tempo excessivo que muitos estudantes passam nestes espaços, separados dos colegas.

O governo já deu um sinal a este respeito, exigindo que os alunos com NEE passem pelo menos 60% do seu tempo letivo integrados na sala de aula para que as escolas possam beneficiar da redução do número de alunos por turma. E preveem-se mais novidades para estes serviços especializados nas diferentes deficiências. "Estas unidades foram muito importantes na altura em que trouxemos os alunos todos para as escolas, porque a escola precisa de recursos", diz Luísa Ucha, ressalvando não "estar em causa" a continuidade destas estruturas. "Mas agora há uma evolução, que resulta do conhecimento do tipo de trabalho, da análise crítica que as pessoas fazem do que a criança aprende dentro e fora da unidade", explica. Não quer dizer que dentro da escola não se possam dar apoios e respostas mais individualizados", ressalva. "Agora, passar o dia dentro da unidade não é boa resposta".

(...) o Ministério da Educação garante também que "nunca" esteve em cima da mesa a extinção destes serviços. Mas admite que está em discussão "a necessidade de existirem respostas mais flexíveis do que a simples colocação de alunos nas unidades de apoio especializadas, melhorando o leque de respostas inclusivas. Estas unidades devem ser consideradas como centros de recursos para promover competências e aprendizagens numa perspetiva de inclusão e não uma alternativa a essa inclusão". David Rodrigues, presidente da pró-inclusão - Associação de Professores de Educação Especial, concorda que este tem sido um obstáculo à real inclusão dos alunos: "Há unidades que realmente funcionam como sendo unidades de inclusão, no sentido de que proporcionam aos alunos oportunidades de inclusão e outras que não funcionam. Tornam-se um pouco guetos dentro das escolas", diz.

As alterações ao decreto 3/2008 não se esgotam nestes temas. Luísa Ucha explica que as propostas ainda não estão fechadas, mas já estão definidas "à partida" algumas prioridades, integradas no objetivo de procurar respostas "individualizadas" eficientes para todos os alunos: "Não queremos dar muito enfoque à deficiência ou à Necessidade Educativa Especial mas a outra coisa: às medidas de apoio à aprendizagem que permitam que determinado estudante aprenda. O objetivo da escola é ensinar". Medidas comuns a todos os alunos, como a anunciada flexibilização dos currículos, também são encaradas como essenciais.

Fonte: DN