quarta-feira, 25 de março de 2015

João, preste atenção! Livro sobre Dislexia para os pequenos


João estava muito feliz. Ele havia passado de ano. E com notas boas! Com nove anos completos, João tem dificuldades de aprendizado.  Foi só no meio do ano que uma psicóloga, amiga de sua mãe, começou a ajudá-lo. Ela conseguiu fazer com que todos compreendessem melhor as dificuldades de João.  O distúrbio que João apresenta, a dislexia, não impede que ele tenha uma vida escolar normal, apenas requer atenção especial, amizade e apoio dos pais e professores.
O parágrafo acima é a sinopse de um livro de Patrícia Secco indicado para crianças de 8 – 11 anos. Livros podem ser excelentes recursos para a conscientização de condições de saúde como a Dislexia, não somente para quem tem, mas também para quem convive. Pensando nisso, estamos colocando aqui como indicação. =)
Você pode procurar por esse livro em lojas físicas ou sites de grandes livrarias da sua cidade.
Você tem outras indicações de livros que sejam como esse? Comenta ou envia email para contato@reab.me =)


domingo, 22 de março de 2015

livro

Recomendo a todos os pais e educadores. Um livro fascinante escrito na primeira pessoa. Hiperatividade, impulsividade, agressividade e défice de atenção não são mais do que um estado de alma!!

O código que pode tratar a cegueira


Enxergar cores e formas é uma habilidade que muitos perdem em consequência, por exemplo, de doenças degenerativas, diabetes e ou acidentes. De acordo com a Sociedade Brasileira de Oftalmologia, estima-se que existam 37 milhões de cegos no mundo. Como o anúncio de um milagre, matéria publica no site da BBC anuncia que está próximo o fim da cegueira. Vejamos do que se trata. Enquanto você olha para esta página, seus olhos fazem coisas interessantes.

A corrente de luz a partir das palavras e imagens está saltando no globo ocular e caindo sobre células fotorreceptoras na retina. Esta informação visual é repassada para as células de saída e, em seguida, transmitida para o cérebro como uma espécie de código, onde é reconstruído para fazer a composição das letras nesta frase que você está lendo agora.

Doenças degenerativas dos olhos, no entanto, podem causar estragos sobre este processo, diz a neurocientista Sheila Nirenberg, do Weill Medical College da Universidade de Cornell, Nova Iorque, EUA. Quando elas danificam a retina, a imagem na frente de você nesse processo nunca fica mais longe do que o globo ocular; a cadeia está quebrada.

Isso é o que faz com que a tecnologia que Nirenberg construiu seja bastante notável. Ela encontrou uma maneira de transmitir um código visual diretamente para o cérebro, ignorando as células danificadas no olho. Em outras palavras, ela pode ajudar os cegos a ver.

Clique abaixo e assista ao vídeo onde Sheila Nirenberg explica como sua tecnologia funciona e o momento eureka que começou tudo.
 

Convenção Multidisciplinar de Educação

Cartaz conven ao inscri  es 1 473 1000
Nos dias 30 de abril, 1 e 2 de maio de 2015 decorrerá, no Multiusos de Gondomar, a Convenção Multidisciplinar de Educação – Perspectivas sobre a Educação Especial com a colaboração de reputados especialistas e investigadores nacionais e estrangeiros, escolas, instituições, empresas e artistas sob a égide do tema da inclusão. A abordagem multidisciplinar criará espaços de partilha de boas práticas e de divulgação de novos saberes.
Nos três dias existirão momentos de exibição de projetos, conferências, workshops, posters, exposição de trabalhos e uma mostra multidisciplinar e interativa. Pretende-se com este evento estimular o debate e a troca de ideias, com o intuito da melhoria das respostas à população com deficiência.
A partir de segunda-feira as inscrições online estarão disponíveis emhttp://www.cme-gondomar.pt/. Para mais informações contacte geral@cme-gondomar.pt.

quinta-feira, 19 de março de 2015

PAIS CEGOS


 
[Reflexões sobre as dificuldades e estratégias dos pais cegos, quando cuidam de seus filhos. As situações referiam-se a amamentar, banhar, alimentar, acidentes domésticos e dar remédio, e o tato, audição e olfato e a rede social contribuindo para sua autonomia.]

O Cego e a Filha - Alfonso Castelao, aguarela - início do séc. XX
O Cego e a Filha - Alfonso Castelao
aguarela - início do séc. XX
 
INTRODUÇÃO
No processo de desenvolvimento do ser humano, os atributos do cuidar são fundamentais e não há pessoa melhor para falar, demonstrar e dedicar-se ao cuidado dos filhos que os pais. Esses exercem uma forma de cuidado especial e, muitas vezes, essa se torna sua razão existencial e essencial para o desenvolvimento dos filhos(1). Contudo, deficiências podem interferir no cuidado dos filhos e é importante que os profissionais de saúde avaliem como se sentem esses pais, quais suas dificuldades e que auxílios necessitam(2).
Para subsidiar a reflexão, realizou-se entrevista em profundidade, técnica dinâmica e flexível, útil para a apreensão de uma realidade, tendo como questão norteadora: fale sobre sua experiência, como cego, no cuidado dos seus filhos. Os sujeitos foram pais que tiveram filhos após a cegueira e que aceitaram participar do estudo após assinar termo de consentimento livre e esclarecido, aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Ceará (COMEPE), sob o nº 345/05.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Seleccionou-se um pai e uma mãe cegos, identificados como Maria e José. Maria, 28 anos, casada, dona de casa, estudante do ensino fundamental, mãe de quatro filhos. José, 53 anos, casado, pai de duas filhas, servidor público. A partir da leitura exaustiva das entrevistas procedeu-se a recortes agrupados em dificuldades e estratégias encontradas para cuidarem dos seus filhos. No interior das tabelas há categorias temáticas para melhor visualização.

Tabela 1
Dificuldades encontradas pelos
pais cegos para cuidar dos seus filhos
MARIA
Alimentação: ... não sabia amamentar, segurar, colocar para arrotar...
Higiene: ... não sabia dar banho, tinha medo da criança cai r, beber água do banho....não cuidava do umbigo, o curativo me deixava preocupada...
Cuidados de saúde: ... o remédio líquido... não tem uma marquinha no copo que possa me orientar...
Acidentes: ... o remédio líquido... não tem uma marquinha no copo que possa me orientar...
JOSÉ
Papel de pai: ... que os filhos não se sintam responsáveis por nós... cegos que tiveram filhos de visão normal e que largaram bengala, largaram braille e ficaram dependentes das crianças...
Acidentes: ... cuidados com remédio...marcar em braile...

Amamentar requer ajuda para ser feito corretamente e prevenir problemas na mama puerperal e o desmame precoce(3). Uma boa pega é fundamental para prevenir problemas na mama e propiciar vínculo afetivo(4). Maria referiu dificuldade no banho, insegurança sobre a temperatura da água, ocorrência de acidentes, aos produtos a serem utilizados na higiene da criança. Utilizar o tato e olfato ao cuidar da criança, a disposição dos utensílios e medidas de segurança transmitem autoconfiança à mãe e preservam o bem-estar da criança.
Para administrar medicamentos líquidos, os pais adotam copo com dosagem única, o que permite perceber quando está cheio por meio do toque.
Acidentes domésticos são prevenidos mantendo em local adequado materiais de limpeza, produtos tóxicos e cáusticos e as crianças longe do fogão, de janelas e escadas. A prevenção de acidentes faz parte da habilitação das pessoas cegas nas atividades da vida diária e os primeiros socorros podem ser ensinados com tecnologia educacional adequada(5-6).
José destaca sua responsabilidade como pai e manifesta repúdio aos que delegam esse papel e se apoiam no filho vidente, em um momento da vida em que a criança mais precisa dele. Apesar disso, os pais cegos encontram estratégias para cuidar dos filhos.

Tabela 2
Estratégias encontradas pelos pais cegos
para cuidarem dos seus filhos
MARIA
Aprendizagem: ... fui cuidando sozinha... mas tudo o que eu fazia tinha que pegar... pra gente que não enxerga ter que pegar...
Alimentação: ... amamentar fui aprender com o tempo... depois fui dando outras coisas, frutas, sopinha, eu mesma fazia...
Higiene: ... comecei a trocar uma fralda... minha irmã... me ensinô a banhar, cuidar do umbigo, trocar, vestir... eu colocava a água com a mão sabia a temperatura... os outros três fui eu que cuidei...
Cuidados de saúde: ... levava pra vacinar, olhava a temperatura do corpo... pezinhos e nos braços... sinal de febre, gotas... boto o dedo sinto e conto as gotas...
Acidentes: ... tinha um pano pegando fogo... a menina de seis anos apagou porque ela enxerga... se você conversar, elas vão guardando aquilo e não vai teimar...
JOSÉ
Aprendizagem: ... a gente procurou criar nossos próprios recursos, nossos próprios métodos para poder lidar com o problema...
Alimentação: ... consegue tomar conta da casa, das crianças ...questão da alimentação...
Cuidados de saúde: ... remédios, a gente faz marca em braille ou com o nome do remédio... dos cuidados que todo pai tem que ter nós tivemos, criando nossos filhos...
Acidentes: ... organizar... sempre no mesmo lugar... tatear ou cheirar... tudo marcado...
Papel de pai: ... com a minha bengala para que eu dependesse da minha bengala e não das filhas... alguém disse: "tome conta do seu pai" ... eu disse: "não é ela que está comigo, sou eu que estou com ela, eu é que sou responsável"
A cegueira: ... as filhas convivem bem com a minha cegueira... percebem que para eu ver eu tinha que pegar... na mente delas eu conseguia ver tudo com a mão... a mão na fotografia ... a tela da televisão...

As estratégias adotadas pelos pais cegos para cuidarem dos seus filhos apoiam-se nos sentidos remanescentes, o tato, o olfato e a audição. Usar redes de apoio é fundamental para o auxílio no cuidado pela mãe cega que as associou com estratégias independentes de cuidar. Maria foi apoiada pela irmã que a ensinou a alimentar, banhar. Contou com a solidariedade da vizinha que a socorria nas situações de imprevisto, quando levava a criança à pediatra, recebia instruções como identificar febre e secreção em ferimentos.
Para alimentar seu filho com colher, segura a cabeça da criança para ter noção da posição da boca. As porções sólidas são oferecidas com a colher em pequena quantidade e as líquidas, em copo. A palavra-chave usada foi o pegar, ou seja, tocar a criança, palpar o alimento, sentir a temperatura da pele e da água. A organização dos objetos é fundamental para a execução de cuidado com os filhos. A autonomia foi evidenciada, mesmo tendo sido enfatizada a procura de apoio de outras pessoas.
Ao administrar medicações em gotas, sentem nos dedos as gotas caírem. Apesar de a legislação prever a identificação dos medicamentos em braille, isso ainda não foi plenamente adotado. As receitas médicas transcritas para o braille também é direito do cego(7). Os profissionais de saúde admitem não dominar habilidades para assistir essas pessoas, relatam não saber se comunicar com pessoas cegas e surdas(8).
A ocorrência de acidentes domésticos mostra que o domicílio e as medidas preventivas não são adequados(5). As atividades da vida diária a serem realizadas pelos cegos incluem cozinhar, lavar, passar, limpar a casa e fazem parte da habilitação recebida em escolas especiais(9). Os cegos utilizam meios não visuais para estabelecerem relações com as pessoas e com os objetos que os cercam. Jamais se deve privá-los de uma experiência real, pois elas maximizam seu ajustamento social(10). O depoimento de José é um exemplo de ajustamento, seguro de si e com boa autoestima.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pôde-se constatar a complexidade de situações vivenciadas pelos pais cegos quando amamentam, alimentam, banham e administram medicamentos. O pai cego destaca o relacionamento social, a mãe cega enfatiza o cuidado biológico.
Desenvolvem estratégias criativas no cuidado com os filhos com o uso do olfato e do tato, o apoio de familiares e vizinhos. Os profissionais de saúde, especialmente os enfermeiros, devem estar mais próximos a essas pessoas e produzir conhecimento para esse grupo tão pouco contemplado em nossa sociedade.

REFERÊNCIAS
  • 1. Grossmann K, Grossmann EK. Maternal sensitivy. In: Crittenden PME, Claussen AH, editors. The organization of attachment relationship: maturation, culture and context. New York: Cambridge University; 2003. p. 13-37.
  • 2. Behl DD, Akers JF, Boyce MJ, Taylor MJ. Do mothers interact differently with children who are visually impaired? J Visual Blindness 1996; (90):501-11.
  • 3. Swanson V, Power KG. Initiation and continuation of breastfeeding: theory of planned behaviour. J Adv Nurs 2005 May; 50(3):272-82.
  • 4. Handa S, Takahasi C, Morimoto M. The management of puerpera by visiting midwives one month after delivery. Stud Health Technol Inform 2006; 122:940.
  • 5. Pagliuca LMF, Costa NM. Deficiente visual: avaliação de risco para acidente doméstico. Esc Anna Nery Rev Enferm 1999; 3(2):97-106.
  • 6. Pagliuca LMF, Costa EM, Costa NM, Souza KM. Desenvolvendo tecnologia para prevenção e tratamento de emergências domésticas para cegos. Rev Bras Enferm 1996; 48(1):83-4.
  • 7. Decreto nº 5.296 de 2 de dezembro de 2004. Regulamenta as Leis nos 10.048, de 8 de novembro de 2000, que dá prioridade de atendimento às pessoas que especifica, e 10.098, de 19 de dezembro de 2000, que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências [on line] [ Acesso 2007 fev 13]. Disponível em:
  • 8. Macedo KNF, Pagliuca LMF. Características da comunicação interpessoal entre profissionais de saúde e deficientes visuais. Rev Paul Enferm 2005; 23(3/4):221-6
  • 9. Pagliuca LMF. A arte da comunicação na ponta dos dedos - a pessoa cega. Rev Latino-am Enfermagem 1996 abril; 4 (n. especial):127-37.
  • 10. Fonseca V. Educação especial. Porto Alegre: Artes Médicas; 1995.

Mini-Olimpíadas promovem inclusão de alunos com necessidades educativas especiais

No sentido de promover a integração, a inclusão, a autonomia e a coesão de alunos com Necessidade Educativas Especiais (NEE) na sociedade, o Município de Braga realiza, no dia 20 de Março, a partir das 9h30, no Gimnodesportivo da Universidade do Minho, Campus de Gualtar, as «Mini-Olimpíadas para os alunos com Necessidade Educativas Especiais».

A atividade, que decorrerá no âmbito do tema «Educação para a Autonomia», incidirá sobre a educação para a inclusão e os instrumentos básicos e essenciais para a promoção do progresso dos estudantes com NEE.

As Mini-Olimpíadas para os alunos com NEE são destinadas aos alunos das escolas do 1º, 2º e 3º Ciclo, do concelho de Braga.

As atividades adaptadas inscritas nas Mini-Olimpíadas, como o Vaivém com obstáculos, para Lançamento de bola medicinal, o Salto steps, Corrida, Lançamento de peso, Estafetas, entre outros, têm como propósito uma abordagem que assenta na Educação Inclusiva, de uma forma adequada ao processo de ensino-aprendizagem destes alunos, funcionando ainda como meio de promoção da inclusão, das relações interpessoais e da igualdade de oportunidades.

terça-feira, 17 de março de 2015

CEGUEIRA E LITERATURA



A cegueira ou a falta de uma visão perfeita foram temas de muitos escritores em contos, crônicas e romances. No entanto, alguns lidaram com essa questão na pele, o que acabou influenciando seu processo de escrita e também tornando o relato do assunto mais pessoal.
Um desses escritores é o argentino Jorge Luis Borges. Ele começou a publicar seus poemas na década de 1920 e, em 1930, criou os contos que o tornariam conhecido mundialmente, anos mais tarde. Segundo o escritor Julián Fuks, Borges já sabia que ficaria cego, o que lhe deu tempo para se preparar e apostar em textos curtos, como poesias e contos – estes, sua marca.
Em 1956, por exemplo, quando foi leccionar literatura inglesa e americana na Universidade de Buenos Aires, os médicos já tinham proibido Borges de ler e escrever devido à cegueira, que havia chegado um ano antes. Em 1960, lançou O Fazedor, livro que considera o mais pessoal.


Jorge Luis Borges

“Ele tinha ficado cego cinco anos antes de lançá-lo, não conseguia mais ler, e ali foi surgindo o Borges dos ditados, das conferências, um Borges oral. Essa obra fala justamente do Borges. O Borges personagem de si mesmo surge n'O Fazedor”, comenta Fuks, que em seu primeiro livro, Histórias de Literatura e Cegueira (Record), narra em crônicas o final da vida de três escritores clássicos que perderam a visão: BorgesJoão Cabral de Melo Neto e James Joyce. No caso do argentino, Fuks diz que os textos curtos são fruto de um Borges “mais oral”.
Em O Fazedor, dois textos falam da cegueira: Poema dos dons e o conto que dá nome ao livro. “Tudo se afastava e se confundia. Quando soube que estava ficando cego, gritou; o pudor estoico ainda não fora inventado e Heitor podia fugir sem menoscabo. ‘Não verei mais (sentiu) nem o céu cheio de pavor mitológico nem este rosto que os anos vão transformar’”, escreveu Borges em "O Fazedor".
O escritor irlandês James Joyce, autor de Ulysses, não perdeu totalmente a visão, mas sofreu com um glaucoma. “O principal de sua obra foi escrito antes desse estado de quase cegueira, embora o problema progressivo de visão, devido ao glaucoma, o tenha acompanhado por bastante tempo. A dificuldade foi maior na fase final de criação de seu último romance, o Finnegans Wake (1939). Ele contou com a colaboração de Samuel Beckett, a quem ditava o texto”, diz Marcelo Tápia, doutor em teoria literária pela USP, diretor do museu Casa Guilherme de Almeida e organizador do Bloomsday, evento mundial em homenagem à obra Ulysses, em São Paulo.


James Joyce

Segundo Tápia, uma relação possível entre a obra de Joyce e seu problema de visão é a “importância que a sonoridade das palavras adquire em seus textos: o efeito sonoro parece ser um aspecto prioritário de sua escrita”, diz. Sylvia Beach, dona da livraria 'Shakespeare in Company', em Paris, e editora de Joyce, conta no livro que leva o nome de seu estabelecimento que as provas enviadas ao escritor eram sempre aumentadas para que ele pudesse revisá-las.
“Ele procurava seguir com seu trabalho, apesar da dificuldade”, conta Tápia. “Há um artigo de Eisenstein em que o cineasta russo relata a ocasião em que procurou Joyce para mostrar-lhe um filme seu, e, após Joyce tê-lo ‘assistido’, ambos conversaram sobre o trabalho; Eisenstein sentiu-se culpado, posteriormente, ao se dar conta de que Joyce, embora o tivesse recebido tão bem, estava quase cego”.

OUTROS AUTORES
O autor de "Admirável Mundo Novo", Aldous Huxley, viveu quase três anos na escuridão, aos 17 anos, em decorrência de uma queratite pontuada. Foram 18 meses totalmente cego e o restante com dificuldades para enxergar.
 

Aldous Huxley

“As coisas foram assim até o ano de 1939, quando, a despeito de um grandioso e reforçado óculos, eu vi a tarefa de ler cada vez mais difícil e fatigante. Não poderia haver dúvida disso: minha capacidade de ver estava firmemente e bem rapidamente deteriorando”, escreveu ele em A Arte de Ver, de 1942, onde fala sobre sua experiência e melhora com o método Bates, que optou pelo descarte dos óculos e por exercícios para fortalecer o globo ocular. Mas a qualidade de sua visão ainda é incerta. Uns dizem que ele nunca a recuperou totalmente; já outros afirmam que as lentes de aumento foram suficientes para ajudá-lo a enxergar melhor ao longo da vida.


Milton dita o poema Paradise Lost às filhas
Eugène Delacroix, 1826

 
O britânico John Milton, considerado o maior poeta inglês depois de Shakespeare, ficou cego aos 44 anos, quando estava preso, devido a um glaucoma. Sua obra mais famosa, O Paraíso Perdido, sobre a criação de Adão e Eva, foi totalmente ditada. A preparação do livro levou seis anos, de 1658 a 1664. A publicação aconteceu em 1667. O problema não impediu o escritor de produzir.


Luís de Camões
 
Já o autor de Os Lusíadas, Luís de Camões, escreveu o livro - cego do olho direito - e publicou-o em 1572. A perda da visão ocorreu após uma batalha em 1524.


João Cabral de Melo Neto
 
No caso do brasileiro João Cabral, a cegueira fez dele um “ex-escritor”, segundo o próprio, após o erro médico que o deixou cego em 1993. Não escreveu mais, pois dizia que precisava ver o papel. Seu último poema foi “Pedem-me um poema”, publicado na revista Terceira Margem, em 1998, um ano antes de morrer. Nos primeiros versos, fica claro que a visão era primordial para sua escrita: “Pedem-me um poema / um poema que seja inédito, / poema é coisa que se faz vendo, / como imaginar Picasso cego?”.