terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Nova bengala para cegos detecta obstáculos que causam todos os anos centenas de acidentes


Nova bengala para cegos detecta obstáculos que causam todos os anos centenas de acidentes

Uma bengala que utiliza ultra-sons para detectar buracos e declives com o objectivo de ajudar pessoas com deficiência visual está a ser desenvolvida na Universidade de Aveiro (UA).

A bengala, já em fase de protótipo, produz vibrações no punho avisando com isso o utilizador que se aproxima, por exemplo, de uma escadaria ou de um buraco no pavimento.
O projecto nasceu no Departamento de Electrónica, Telecomunicações e Informática (DETI) como resposta a um desafio lançado à academia de Aveiro pela Associação Promotora do Ensino dos Cegos (APEC) que quer acabar com as centenas de acidentes sofridos anualmente pela população invisual portuguesa, muitos dos quais com consequências graves, derivados dos obstáculos indectetáveis com uma normal bengala.
«A bengala desenvolvida na UA é, sem qualquer dúvida, uma grande ajuda para as pessoas com deficiência visual porque dá muito mais informação do que as bengalas existentes», congratula-se Victor Graça, presidente da APEC.
O responsável pela associação mais antiga dedicada aos cegos portugueses (foi fundada em 1888) aponta que os avisos lançados pela bengala para a existência de obstáculos ao nível do chão «são uma grande mais-valia para esta população».
«Dado que a informação possível de obter com esta bengala é muito maior do que a que é possível obter com as que actualmente existem no mercado, quanto mais informação a pessoa cega ou amblíope tiver menos acidentes existem», aponta Victor Graça lembrando que as barreiras abundam por todo o país: «Basta pensarmos, por exemplo, na enorme quantidade de carros estacionados em cima do passeio, nas esplanadas, nos buracos, nas obras não sinalizadas ou nos caixotes do lixo.»
Para já, os obstáculos suspensos ao nível da cabeça do utilizador não são ainda detectados pelo protótipo do DETI. No entanto, essa funcionalidade será objecto de futuros desenvolvimentos. A expectativa dos investigadores da UA é também criarem um produto acessível com um preço que ronde os 100 euros. «O custo das que se fabricam no estrangeiro [com funcionalidades similares] são vendidas no nosso país por um valor que as pessoas com deficiência por norma não conseguem pagar de modo nenhum», diz Victor Graça salientando o preço mais acessível da bengala da UA como outra das grandes vantagens do projecto.
«Esta bengala ganhou forma por solicitação da APEC que nos propôs o desenvolvimento de uma bengala que reduzisse duas das principais necessidades de quem as utiliza: a detecção de buracos e desníveis no chão e a detecção de obstáculos ao nível da cabeça», lembra José Vieira, investigador do DETI e coordenador do projecto que contou com a participação dos estudantes Nuno Dias e o Pedro Rosa.
Outro requisito apontado pela APEC foi a colocação na bengala de LEDs de alto brilho que sinalizem a presença da pessoa com deficiência visual ao anoitecer e de forma automática, funcionalidade já implementada pelos investigadores do DETI. «Também está pensado o desenvolvimento de uns óculos com sensores de ultra-sons e de um altifalante paramétrico para a detecção de obstáculos. No entanto, estes dispositivos ainda estão numa estado embrionário de desenvolvimento», aponta José Vieira.
A bengala do DETi tem incorporado um emissor de ultra-sons que envia um sinal que é reflectido pelo solo. Dois recetores de ultrassons detectam o eco e medem o tempo entre a emissão e a recepção. A partir deste tempo consegue-se saber a distância ao solo. Quando esta ultrapassa um determinado valor, o punho da bengala vibra. «A electrónica utilizada é de ultra-baixo consumo de modo a prolongar ao máximo a duração das baterias», explica José Vieira lembrando que «numa primeira versão incluiu-se uma célula fotovoltaica para prolongar a duração das baterias».
Actualmente, no mercado, já existem bengalas que utilizam ultra-sons para a deteção de obstáculos, mas a adesão é nula. Os motivos, aponta José Vieira e a própria APEC, prendem-se com a «pouca fiabilidade na detecção de obstáculos e o preço elevado». O facto de não serem articuláveis também em nada ajuda à respectiva adopção. 
Jorge Anjos, funcionário da UA e invisual, a pedido do DETI já experimentou a bengala e tem ajudado os investigadores a melhorá-la. «Os primeiros passos estão dados. Agora é preciso não parar», aponta.
Para o futuro próximo, Jorge Anjos já alertou os investigadores para a necessidade da bengala «poder ser articulada para quando um cego necessitar de a dobrar, que os sensores [instalados na extremidade da bengala que perscruta o chão] devem estar colocados de forma a que o utilizador possa executar normalmente as técnicas de manuseamento da bengala e, já agora, que possam também identificar obstáculos em altura». Melhorias que a equipa de José Vieira já está a implementar.

Cartilha da Inclusão Escolar




http://www.sbp.com.br/pdfs/Cartilha_Inclusao_Escolar2014.pdf

Pedido de colaboração

Identificação de comportamentos no âmbito da “Descoberta da palavra" (word-finding): Um estudo quantitativo


Caro Colega,
Agradecemos desde já a disponibilidade para participar neste estudo.
No âmbito do Mestrado em Educação Especial – Domínio das Dificuldades de Aprendizagem Específicas (Universidade do Minho), estou a desenvolver um trabalho acerca da "Descoberta da palavra" (Word-finding), sob orientação da Professora Anabela Cruz-Santos.
A sua colaboração através deste questionário é imprescindível para o êxito deste trabalho.
O questionário é anónimo, as respostas confidenciais e destinam-se exclusivamente à investigação em curso.
Para o efeito, pedimos-lhe que leia atentamente as questões colocadas e assinale a opção que melhor corresponde à sua perspetiva sobre o assunto. Depois de preenchido clique em “Enviar”.
Gratos pela sua colaboração.
António Fonseca
Anabela Cruz-Santos

https://docs.google.com/forms/d/12pkVZbIGsJnjZmnl_xT12cvpqNdvjpKXaO0aDzErhvU/viewform?c=0&w=1

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Mulher cega dá à luz e consegue ver a filha

Uma jovem de 29 anos, que perdeu praticamente toda a visão quando era ainda criança, vivenciou o momento mais feliz da sua vida ao conseguir ver a filha que tinha acabado de dar à luz.


Tudo aconteceu em Ontario, no Canadá. Kathy Beitz perdeu a visão aos 11 anos, tendo-lhe restado uma pequena percentagem de visão periférica que não lhe permitia fazer uma vida normal, nem ver com precisão.
De acordo com a ABC News, a jovem viveu o momento mais feliz da sua vida quando deu à luz, pois foram-lhe dados uns óculos especiais que lhe permitiram ver a filha.
“Oh meu Deus. Olhem para estes dedos dos pés”. Foram estas a primeiras palavras da recém-mãe ao ver a filha que tinha acabado de nascer.
Os óculos especiais foram oferecidos a Kathy por um programa de angariação de fundos da eSight, a empresa que criou esta inovadora tecnologia, pois o seguro de saúde da jovem não cobria tal despesa que ronda os 13,4 mil euros (15 mil dólares).
Agora, seis semanas depois do nascimento da pequena Aksel, Kathy garante que os óculos melhoraram a sua qualidade de vida e ajudam-na a cuidar da bebé e a fazer outras tarefas como cozinhar ou ir ao supermercado.
A ABC explica que os óculos captam vídeos em tempo real, sendo que as imagens são projetadas nas lentes com alta definição, permitindo que Kathy consiga ver o mundo ao seu redor.
O vídeo foi partilhado no YouTube pela irmã de Keith que garantiu que graças aos eSight Glasses a jovem viu uma criança pela primeira vez na sua vida.

Leitura especial. Quem quer dar voz e vida a um livro?

Na biblioteca de Gaia há um estúdio de gravação onde 3000 livros já foram gravados em áudio

O Serviço de Leitura Especial da Biblioteca de Gaia disponibiliza a pessoas com deficiência visual obras em braille, áudio e digital, numa espécie de “missão” que, para poder ser ampliada, necessita de mais voluntários, indicaram os responsáveis. “O nosso objectivo é levar a leitura a quem precisa dela. Quem precisa deste trabalho não é quem tem tudo. Há muitas pessoas com deficiência visual que não têm acesso a livros e a leitura pode ser estudo, companhia, terapia”, assinalou a coordenadora, Susana Vale.
Actualmente, este serviço – que abriu em 1998 mas só em 2006, depois de uma candidatura bem-sucedida a fundos, conseguiu apostar num estúdio de gravação, onde voluntários dão voz a livros – possui cerca de 1400 obras em braille e mais de 3000 em suporte áudio que podem ser requisitadas gratuitamente por 30 dias.
O serviço – que contabiliza cerca de 950 utilizadores e, para além de Portugal, soma pequenos núcleos em França, Itália e Brasil – também recebe solicitações de escolas, que procuram obras do Plano Nacional de Leitura, e de instituições, nomeadamente delegações da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO).
Aos voluntários cabe fazer saltar da tinta, através da voz, narradores e personagens e, apesar de importante, não chega ter só boa vontade. Ser locutor implica respeitar critérios como dicção, respeito pela pontuação, ritmo, clareza e expressividade.
Susana Vale explicou a importância desses critérios para “agarrar” um “leitor--ouvinte” confessando que há um utilizador do serviço que já não pede obras pelo título ou pelo nome do autor. Pede livros “daquele moço”, contou, explicando que o áudio-leitor se refere ao narrador Francisco Ferraz, de 32 anos, que oferece cerca de hora e meia por semana a esta missão.
Quanto a títulos, “A Madrugada Suja”, de Miguel Sousa Tavares, ou obras de Ken Follet, José Rodrigues dos Santos e Luís Sepúlveda, foram alguns dos livros mais procurados em 2014.
Além da produção em braille e dos áudio--livros, também são produzidos livros-digitais que resultam de um processo para o qual são “fundamentais”, indicou Susana Vale, “cada vez mais voluntários”.
Trata-se de digitalizar uma obra página a página, as imagens são convertidas e trabalhadas num processador de texto para serem retiradas todas as anomalias. Anulados os “lixinhos”, os livros-digitais podem ser usados por pessoas com deficiência visual através do computador com programas de leitura de ecrã ou terminais de braille. Este é, portanto, um serviço que pode ser feito em casa.
“Quantos mais voluntários tivermos, maior será a oferta que pode ser disponibilizada ao público”, apontou Susana Vale, lamentando, no entanto, que, a nível nacional, “a oferta em braille não seja tão actual e diversificada quanto deveria ser”.
Quanto aos áudio-livros e ao suporte digital, a responsável acredita que o panorama “tem vindo a melhorar”, embora vinque que “continua a haver desfasamento entre aquilo que é editado para a população sem qualquer problema de visão e para quem tem deficiência visual”.

sábado, 24 de janeiro de 2015

29 mil visitas


Neste dia, a palavra mais correcta: obrigada

Um bem-haja a todos os que visitam este cantinho, não teria gracinha nenhuma sem vocês!
Beijinhos

DEFICIÊNCIA VISUAL, DESENVOLVIMENTO MOTOR, APRENDIZAGEM MOTORA E HABILIDADES MOTORAS


“Deficiência refere-se a qualquer perda ou anormalidade da estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatómica, podendo resultar numa limitação ou incapacidade no desempenho normal de uma determinada actividade que, dependendo da idade, sexo, factores sociais e culturais, pode se constituir em uma deficiência” (Masi, 2002).
“A deficiência visual pode ser definida como uma limitação na visão que, mesmo com correcção, afecta negativamente o desempenho de uma criança durante sua educação” (Teixeira, 2008, p. 390).
Existem diferentes causas da cegueira como sejam: as doenças infecciosas, acidentes, ferimentos, envenenamentos, tumores e doenças gerais e influências pré-natais e hereditariedade.
A cegueira infantil está presente em países em desenvolvimento na proporção de 1,5/1.000, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o que no Brasil corresponde a cerca de 255 mil crianças. No entanto ainda de acordo com a OMS, 70% a 80% das crianças diagnosticadas como cegas possuem alguma visão residual. São os casos chamados de baixa visão ou subnormal.
Cerca de 500.000 crianças tornam-se cegas todos os anos no mundo e, nos países em desenvolvimento, muitas delas morrem até um ano após a manifestação da cegueira”(Teixeira, 2008, p.390).
“Pode-se classificar a deficiência visual segundo as referências da International Blind Sports Federation (IBSA) e da U.S. Association for Blind Athletes:

Classificação Esportiva de atletas com deficiência visual (IBSA)
 
  • B1 - Totalmente cegos, aqueles que podem ter percepção de luz, mas não são capazes de reconhecer as formas das mãos a qualquer distância.
  • B2 - Aqueles que percebem as formas das mãos, mas com acuidade visual não superior a 20/600 pés, ou aqueles com menos de 5º de campo visual.
  • B3 - Aqueles com acuidade visual de 20/599 até 20/200 pés e/ou aqueles com 5º a 20º de campo de visão.
  • B4 - Aqueles com acuidade visual entre 20/199 e 20/70 pés.

Para que se compreenda do que se está a falar é importante que se aborde os vários significados dos termos que serão utilizados neste trabalho.
Desenvolvimento motor é um processo que se desenrola ao longo da vida e compreende todas as mudanças ao nível motor (aquisição, estabilização e regressão das habilidades motoras). Resulta da interacção da hereditariedade com o envolvimento, ou seja, dum processo de maturação neuromuscular com as novas experiências motoras, tendo em conta as já existentes”. (Professor Coelho. Slides da aula de Desenvolvimento Motor.2007).
Existem factores influentes do desenvolvimento motor, os biológicos que envolvem os factores do crescimento e os envolventes como sejam nutrição, clima, estatuto sócio-esconómico, entre outros.

As fases do desenvolvimento motor são:
  • Movimentos reflexos (pré-natal até aos 12 meses) – são os primeiros movimentos que o ser humano realiza. São involuntários e constituem a base do desenvolvimento motor. Através deles, a criança começa a obter informações acerca do seu corpo e do meio envolvente próximo. São exemplos os reflexos palmar e plantar, o chupar e os primeiros passos.
  • Movimentos rudimentares (12 meses até aos 2 anos) – São os primeiros movimentos voluntários. Estão directamente relacionados com a maturação do sistema nervoso, sendo o seu desenvolvimento previsível. São exemplos o rastejar, o gatinhar, o sentar, o andar e o controlo da cabeça e pescoço.
  • Movimentos fundamentais (dos 2 aos 7 anos) – é a fase onde as crianças exploram as capacidades de movimento do seu corpo. A importância da maturação é gradualmente substituída pela qualidade do processo ensino-aprendizagem. São exemplos o correr, saltar, agarrar e lançar.
  • Movimentos especializados (a partir dos 7 anos) – são movimentos fundamentais refinados, combinados uns com os outros, específicos duma determinada tarefa. No período de transição movimentos fundamentais/movimentos especializados (7-10 anos), deve ser evitado qualquer tipo de especialização.

Podemos dividir os padrões de desenvolvimento em:
Padrão Inicial - observam-se as primeiras intenções de realização da habilidade motora. O desempenho é caracterizado pelo pouco ou excessivo uso do corpo. Ritmo e coordenação pobres. Tipicamente, as crianças atingem este padrão por volta dos dois anos.
  • Dificuldade em manter a posição erecta
  • Perda de equilíbrio (imprevisível)
  • Movimento rígido e “indeciso” do membro inferior de acção
  • Passos pequenos
  • Contacto com o solo tipo “pé-chato”
  • Dedos dos pés “protegidos”
  • Larga base de suporte
  • Flexão do MI no contacto com o solo, seguido de rápida extensão do MI
  • Movimento dos MS ajudando a manter o equilíbrio.
Padrão Elementar – É um período de transição, no qual já se nota uma melhor fluidez dos movimentos. Os diferentes movimentos já revelam alguma inter-ligação, apesar de se notar ainda alguma descoordenação entre os grupos musculares que contribuem para execução da habilidade motora. Normalmente as crianças atingem este padrão ao 3/4 anos.
  • Gradual “suavidade” do movimento
  • Aumento no comprimento da passada
  • Contacto calcanhar – dedos
  • MS caídos ao lado com limitado movimento de balanço
  • Base de suporte entre as dimensões laterais do tronco
  • Aumento da acção pélvica
  • Aparente elevação vertical do corpo

Padrão Maturo
 - Tem lugar uma boa coordenação entre os diferentes grupos musculares e consequentemente uma boa fluidez de movimentos, havendo também uma boa adaptação a diferentes condições de realização. É o desempenho óptimo da habilidade motora. Com excepção das habilidades manipulativas, atinge-se este padrão aos 5/6 anos.
  • Acção reflexa de balanço dos MS
  • Limitada base de suporte
  • Modo de andar “relaxado”
  • Pequena elevação vertical do corpo
  • Contacto “calcanhar-dedos” no solo definido.

Aprendizagem motora é o conjunto de processos que implicam uma modificação estrutural, que se reflecte geralmente numa alteração do comportamento (adaptação crónica) como resultado da prática do individuo, de forma relativamente longa no tempo”. (Professor Coelho. Slides da aula de Desenvolvimento Motor.2007)
 
Como se processa:
Estímulo  Tratamento  Resposta

Fases da aprendizagem:  Execução tosca  Aperfeiçoamento  Aplicação / Combinação

Existem três fases da aprendizagem motora:
  1. Cognitiva - Grande empenho no processo de conhecer para o desempenho da tarefa. As questões iniciais da aprendizagem duma tarefa relacionam-se essencialmente com a sua apresentação (identificar o objecto da tarefa, saber o que fazer e quando, o que não fazer). Existem ainda grandes erros nesta fase.
  2. Associativa - Existem alguns erros para o desempenho da tarefa, é a fase de organização do movimento. Aumenta a capacidade de determinar e corrigir os erros. Verifica-se a ocorrência de aprendizagem, pela melhoria da performance de execução para execução. Nesta fase já existem menos erros.
  3. Autónoma – Diminuição do empenho cognitivo. Fase em que o movimento após muita prática automatiza. Possibilidade de dirigir a atenção para outros aspectos relevantes para o sucesso das acções motoras. Maior estabilidade na resposta. Baixa frequência de erros.

“Habilidade motora é acção que se desenvolve a partir de repertórios inatos d padrões de movimento em interacção com as condições de envolvimento e expressam um processo de diferenciação que reparte grandes acções em componentes para posteriormente as utilizar em novas sequências”. (Professor Coelho. Slides da aula de Desenvolvimento Motor.2007).
Habilidades Posturais/Estabilidade: são a base para todas as habilidades locomotoras e manipulativas (figura 3), porque todos os movimentos envolvem o elemento de estabilidade. São habilidades que visam a manutenção e/ou recuperação do equilíbrio na relação com a gravidade. São exemplo o apoio uni-pedal e o balançar o corpo sem sair do sítio.
Habilidades de Locomoção: são as habilidades motoras nas quais o corpo é transportado numa direcção vertical ou horizontal de um sítio para o outro. São exemplo o andar, o correr e o salto horizontal.
Habilidades Manipulativas: são as habilidades motoras que compreendem a interacção dos segmentos corporais com os materiais. Estas podem ser manipulativas grossas, em caso de movimentos que envolvem a aplicação ou recepção de forças em objectos (lançar, apanhar, pontapear, etc.). Podem ser ainda manipulativas finas, em caso de movimentos de manipulação de objectos que impliquem grande controlo motor, precisão e perícia (dar um nó nos atacadores, escrever, cortar com a tesoura).

Parte II
“O sucesso na performance habilidosa depende da eficácia com que o executante detecta, percebe e utiliza a informação sensorial relevante. Essa eficácia pode variar a partir da rapidez com que um padrão de acção de um adversário ou obstáculo é detectado, até à precisão com que o indivíduo sente os movimentos e posições de seu próprio corpo.
Fontes de informação sensorial:
  • Exteroceptivas: Informação que vem primeiramente das fontes externas ao corpo.
  • Interoceptivas: Informação que vem primeiramente de fontes internas ao corpo.
  • Proprioceptivas/Cinestésicas: Informação que chega de dentro do corpo da pessoa, e que sinaliza a posição e movimento do corpo e segmentos.
Todas essas fontes trabalham simultaneamente e tem como maior importância a possibilidade de geração de feedback para o sistema de controlo de circuito. Elas fornecem dados para os mecanismos de comparação, execução e efectuação do sistema, que irão analisar o estado real com o estado desejado, fazendo as devidas alterações para realização da meta.
Dentro da classe de fontes de informação sensorial exteroceptivas encontramos a visão como principal exemplo, servindo como definidora da estrutura física de nosso ambiente. A visão também nos oferece informação sobre o movimento de objectos no ambiente, tal como a trajectória e a velocidade de um objecto que se aproxima, ou ainda nos auxilia na detecção de aspectos espaciais e temporais de nossos próprios movimentos.
Existem dois sistemas de visão essencialmente separados pelo trajecto de envio de informação recebida pela retina. Os dois sistemas são:
  • visão focal: sistema visual que as pessoas utilizam para identificar objectos no centro de seus campos visuais; é consciente, influenciada pelo movimento de objectos circundantes e diminuída com pouca luminosidade.
  • visão ambiental: sistema visual que as pessoas utilizam para detectar a orientação de seus corpos no ambiente; é inconsciente, abrange todo o campo visual e é utilizada para o controle de movimento.
Esses dois sistemas que agem de maneira integrada e a partir de um conceito de fluxo óptico, que relaciona as informações oferecidas a partir da luz reflectida pelos objectos na retina, que, à medida que é alterada, fornece informações sensoriais complexas a respeito de estabilidade e equilíbrio; velocidade do movimento por meio do ambiente; direcção do movimento relativo à posição de objectos fixos no ambiente; movimento dos objectos no ambiente relativos ao observador; tempo para contacto entre o observador e o objecto no ambiente. Todas essas inter-relações fazem surgir o conceito de propriocepção visual, que se resume nas informações fornecidas pelo sistema visual sobre os aspectos proprioceptivos dos movimentos de uma pessoa”.(2009, Texto adaptado do Prof. Luzimar Teixeira).

Parte III
Desenvolvimento motor da criança cega até aos 2 anos:

Controle de cabeça:
“Na criança com visão, o desenvolvimento físico começa na cabeça e se estende até os pés, e parte do tronco em direcção às extremidades. A criança, portanto deve desenvolver o equilíbrio da cabeça e o controle do tronco antes de aprender a sentar (…). O bebé cego não conta com o estimulo visual para motivá-la a levantar a cabeça e a desenvolver o controle da mesma (…).
Embora a criança cega prefira deitar-se de costas, é essencial, para o fortalecimento do pescoço, que ela seja deitada sobre o estômago. Algumas maneiras para o conseguir:
  • Pendurar brinquedos sonoros e com diferentes texturas nos lados do berço;
  • Mudar regularmente posição do bebé no berço;
  • Alimentar o bebé e mudar suas roupas alternando os lados;
  • Encorajar o bebé a levantar a cabeça e a movê-la em volta enquanto o segura pelos ombros” (Community Based Program Boston Center for Bilnd Children,1996, p.3).
“Durante os primeiros anos de vida, ao ser superprotegida ou pouco estimulada pelos pais, a criança cega deixa de ter acesso uma imensa variedade de vivências motoras e sensoriais. Essa falta de oportunidades faz com que apresente, especialmente entre os quatro e oito anos, um atraso motor quando comparada àquela que enxerga, o que, em geral, somente será compensado na adolescência”. (Teixeira, 2008, p.402).

Aproximação:
“Permanência dos objectos é a consciência de que um objecto ou pessoa existe mesmo quando fora do campo visual, auditivo ou táctil. Nos bebés com visão, essa capacidade aparece em torno dos 3 ou 4 meses. Nos bebés cegos, tal faculdade sofre um grande atraso, e só se desenvolve através de um trabalho consciente de treinamento e estimulação. A percepção da permanência dos objectos (figura 4) é essencial para o desenvolvimento da coordenação ouvido-mão (tentar alcançar um objecto atraído por seu som), que se desenvolve na criança com visão em torno dos 8 a 9 meses. Na criança cega essa faculdade não se desenvolve até por volta dos 12 meses, ou mesmo mais tarde.
Um bebé cego precisa de muita estimulação táctil, especialmente em torno da 16ª semana, de maneira a estimular movimentos de extensão dos braços e mãos.
Por volta da 12ª a 16ª semana, a criança com visão acompanha com os olhos os objectos e começa a ter movimentos desordenados de extensão. (…). O bebé cego movimenta ses pés e pernas mais que seus braços e mãos; por um bom tempo ainda mantém a posição de recém-nascido (braços flexionados com as mãos à altura dos ombros). Suas mãos raramente são trazidas até a linha mediana do corpo, e ele geralmente não brinca com os seus dedos. Portanto, ele precisa de estimulação e reino para desenvolver consciência de seus braços e mãos e de seu uso.
Algumas maneiras de se conseguir isso:
  • Fixe sinos em seus pulsos e tornozelos;
  • Coloque brinquedos ao alcance do bebé dentro do berço (o tacto é o principal sentido a ser estimulado nessa idade, mas brinquedos sonoros também ajudam);
  • Encoraje-o a unir as mãos na altura da linha mediana do corpo;
  • Quando der a mamadeira coloque as mãos d bebé na mesma;
  • A partir da 16ª semana a criança começa a sentar-se. Motive-a a sentar, e faça jogos manuais quando ela estiver sentada (ex: jogos que faça bater palminhas ritmadamente)”.(Community Based Program Boston Center for Bilnd Children,1996, p.4).

Engatinhar e arrastar-se:
“Uma criança cega geralmente não engatinhará ou se arrastará até que tenha desenvolvido a percepção da permanência dos objectos ou a coordenação ouvido-mão. (…).
Muitas vezes a criança cega pula o estágio do engatinhar/arrastar-se, porque, quando tiver desenvolvido a percepção da permanência dos objectos, pode também já ter desenvolvido a habilidade de ficar em pé e andar”. (Community Based Program Boston Center for Bilnd Children,1996, p.4).

Andar:
“Uma criança cega pode começar a andar por volta da mesma idade que a criança que vê mas normalmente demora mais a andar. Um cercado é muitas vezes bom para o bebé cego no inicio dessa fase, por dar a ele um espaço definido, permitir a exploração controlada do espaço, abrigar os brinquedos e permitir que ele se apoie para ficar de pé (…).
Quando criança começar a andar é mais conveniente manter os móveis, etc. no mesmo lugar até que ela conheça o ambiente (…).
A coordenação o ritmo de uma criança cega ao andar podem ser mais desordenados do que os de uma criança com visão. Se a criança não for encorajada a conduzir seu corpo de maneira adequada, pode ser que mantenha uma grande distância entre as pernas ao ficar erecta, desenvolverá má postura e uma forma de andar incorrecta. Um problema comum é criança que deixa cair a cabeça sobre o peito. A criança cega deve ser instada a mater cabaça erguida, perpendicular em relação ao chão” (Community Based Program Boston Center for Bilnd Children,1996, p.4).

Correr, pular e saltar:
“A maior parte das actividades motoras grossas são aprendidas através de estímulo visual e imitação. A criança cega precisa ser ensinada (…) ela deve ser encorajada a praticar esses movimentos de maneira independente. Isso é necessário para o desenvolvimento de um bom controle e coordenação muscular e corporal”. (Community Based Program Boston Center for Bilnd Children,1996, p.4).

Falar:
Aprender a falar normalmente envolve a imitação visual da pessoa que fala (…). A criança cega pode balbuciar por muito tempo devido ao prazer oral que essa actividade proporciona. Por vezes, a fala ecolática pode se desenvolver e persistir por períodos maiores do que em relação à criança com visão” (Community Based Program Boston Center for Bilnd Children,1996, p.5).

Comunicação:
A criança cega pode esquecer palavras mais facilmente. Muitas vezes palavras não têm sentido para ela, a menos que a criança tenha uma experiência directa com as mesmas. Portanto, é necessário fazer com que as palavras se tornem significativas para a criança cega. Descreva pessoas e coisas continuamente. Fale sobre o que você está fazendo (lavando o rosto, bebendo eu suco, etc).
Evite manter rádio e televisão constantemente ligados perto da criança cega, porque o estímulo auditivo sem significado tendo a ser ignorado (…). Permita que a criança faça escolhas verbalmente, que responda sim ou não, e que tenha oportunidades para o uso funcional do seu vocabulário”. (Community Based Program Boston Center for Bilnd Children,1996, p.5).

Parte IV
Desenvolvimento motor da criança deficiente visual
 
  • Ao nascer a criança já tem percepção luminosa;
  • Nos primeiros dias, 3 a 5% do tempo em que a criança está acordada é capaz de fixar um objecto, e aos 6 meses é de 50%;
  • 20 dias a 1 mês consegue seguir um segmento de trajectória, mas a cabeça não acompanha;
  • 1 mês a 1 ano e meio há movimento de cabeça e dos olhos;
  • 3 meses – criança pestaneja com a aproximação de um objecto e percorre visualmente a origem do som. Há reflexo labiríntico de endireitamento da cabeça quando o tronco se encontra inclinado para frente, e pouco mais tarde quando se encontra inclinado para trás.
Cegos que não fixam o olho devem ser estimulados quanto ao reflexo labiríntico com movimentos de flexão à frente e de flexão a trás. Colchões de água estimulam o equilíbrio de tronco.
  • Na criança cega a cabeça só se movimenta aos 7 meses;
  • A audição não tem qualidade atractiva e significativa;
  • A criança cega adquire o controlo de cabeça na mesma idade que a criança normo-visual (3 meses), verifica-se entretanto uma imobilidade de cabeça;
  • Atraso de 6 meses no movimento de elevação da cabeça e do peito, através do apoio das mãos e extensão dos braços quando de barriga para baixo.
  • Aos 3 meses, sorri para a face humana. Teorias indicavam que crianças normo-visuais sorriam pelo reconhecimento visual da mãe. Na criança cega, talvez isso ocorra por estímulos tácteis (dar de mamar);
  • 3 meses – crianças normo-visuais estabelecem contacto com pessoas e objectos, uma vez que conseguem fixá-los.
Na criança Deficiente Visual, não existe equivalente para inspecção do meio, localizar e manter contacto com o objecto ou pessoa, quando esses saem do seu campo perceptivo. A informação descontínua da audição e do tacto não é suficiente para percepção dessas mudanças. Assim, só quando adquire a sua própria mobilidade que a criança Deficiente Visual torna-se capaz de perceber tais mudanças.

Desenvolvimento da preensão.
  • 4 meses: movimenta mãos e pés; junta as mãos na linha média do corpo.
  • 4 meses e ½: chegar a um objecto; coordenação mãos-olhos.
  • 6 meses: agarra um objecto quando esse o toca, e se lhe dermos um outro objecto, ele larga um deles. São movimentos involuntários.
  • Dos 8 aos 11 meses: coordenação ouvido-mãos. Na criança Deficiente Visual não se desenvolve da mesma maneira.

Aquisição de locomoção
  • 6 meses e ½: a criança se senta. Posição de barria para baixo e barriga para cima.
  • 7 meses: chega a um objecto com locomoção, até engatinhar.

Na criança Deficiente Visual:
  • 6 meses: barriga para cima e para baixo, mas não busca um objecto com deslocamento. Mesmo com “dicas” auditivas, espera que alguém lhe entregue, estendendo os braços.
  • 13 meses: boa coordenação manual, integrando informações tácteis e auditivas. Engatinha e passa para a posição de pé na mesma idade, mas não realiza a marcha na mesma altura e com mesma segurança.
  • A marcha inicia-se por volta dos 19/20 meses. É devido a falta de motivação para explorar o espaço por si só.
  • Começa a aprender a marcha lateral com ambas as mãos apoiadas na parede. Frontal, só com a mão apoiada em alguém.
As principais defasagens apresentadas pelos cegos ficam evidentes nas habilidades motoras. Algumas são: expressão corporal e facial, coordenação motora global, equilíbrio, postura defeituosa, orientação espaço-temporal, resistência física, lateralidade, mobilidade, dificuldade de relaxamento, imagem corporal, e movimentos básicos fundamentais. Aspectos cognitivos que sofrem alteração: formação e utilização de conceitos, generalizações, análise, abstracções. Aspectos sócio-afectivos: insegurança, medo do desconhecido, dependência, apatia, ansiedade, autoconfiança, auto-estima.
Todos esses aspectos variam de pessoa para pessoa, dependendo das experiências de cada um ao longo da sua vida. A maneira pela qual adquiriram a deficiência e a idade em que isto ocorreu também influenciam no nível de defasagem de aprendizagem. Nos casos de deficiência congénita, por exemplo, as defasagens costumam ser mais acentuadas que nos de deficiência adquirida. Isto porque a visão permite uma experimentação que contribui para o desenvolvimento motor das pessoas.
No caso da pessoa portadora de deficiência visual, outros canais de estimulação (sensação) se desenvolvem, caracterizando outra forma de comunicação com o mundo, o que leva a outras percepções e dimensões.
As informações vindas da percepção táctil, auditiva, olfactiva ou gustativa são integradas e memorizadas num esquema global. Assim, é formado um esquema mental, que só existe e se desenvolve no homem pelo processo de trabalho, jogo e prática social.
A criança cega, neste sentido, não terá dificuldade de aprender se lhe for propiciada experiências diversas, que envolvam o trabalho de seus canais de comunicação. Deve, no entanto, ser incentivada a procurar os objectos e brinquedos, por meio de estimulação auditiva, já que ausência da visão restringe o processo de Orientação e Mobilidade.
A prática de actividades físicas pode diminuir as defasagens de aprendizagem, facilitando a formação e aquisição de conceitos e aumentando a experiência motora dos cegos. Porém devemos considerar a maior precaução que os cegos têm quanto a desafios das habilidades motoras, devido às suas limitações.
É importante para o professor saber das capacidades físicas, do nível de mobilidade e do conhecimento que os alunos portadores de deficiência visual têm sobre a prática em questão.
Por outro lado, é importante o aluno ter informações sobre a prática para que esteja consciente de suas limitações e capacidades, inclusive informações que para um vidente seria irrelevante, como algumas informações sensoriais e corporais, e a respeito do espaço em que se encontra. Isto devido à dificuldade em compreender e interiorizar o esquema corporal.
Deve-se trabalhar técnicas de Orientação e Mobilidade, que significa a capacidade do indivíduo de relacionar-se no ambiente, se movimentando com segurança, eficácia e tranquilidade, utilizando os sentidos remanescentes. Envolvem:
  • conceitos referentes ao ambiente, objectos, terrenos, sons; de orientação: direcção, posição e curso de objectos ou do próprio corpo; de mobilidade: distância, sequência, aproximação e afastamento.
  • treino da percepção de desenvolvimento motor, como audição, táctil, cinestésico, equilíbrio, olfacto, paladar.
  • fornecimento de informações claras: subir um degrau, girar 90 graus, dar cinco passos à frente.

Técnicas Básicas de Mobilidade
  • O Deficiente Visual segura acima do cotovelo do guia;
  • O cotovelo fica colado ao corpo;
  • Entrar na escada sempre perpendicular, lembrando que o Deficiente Visual está a meio passo atrás, quando terminar a escada, dar um passo longo;
  • Para passar por uma porta, levar o braço para trás;
Guia Vidente: o guia dá todas as informações para o cego (objectos que estão próximos, características da área em que estão). Isso dá mais segurança à pessoa, no entanto dificulta a sua independência.
Locomoção Independente: proporciona maior liberdade para o cego. Utilização da bengala para reconhecimento do terreno e obstáculos. Obter com as mãos as informações (sensações tácteis). Dessa forma se torna apto a realizar actividades básicas sozinho (guiar-se com as mãos apalpando os objectos, subir e descer escadas, se proteger com as mãos). (2009. Texto adaptado Professor Luzimar Teixeira).

DEFICIÊNCIA VISUAL, DESENVOLVIMENTO MOTOR, APRENDIZAGEM MOTORA E HABILIDADES MOTORAS
Trabalho realizado por Margarida Castro Leal
Outubro de 2009
Escola Superior de Educação e Ciências Sociais de Leiria
Docente: Professor Dr. Luzimar Teixeira

fonte: http://www.luzimarteixeira.com.br/