segunda-feira, 29 de setembro de 2014
O que deve ser um assistente pessoal para deficientes? Ministério diz que perfil não está fechado
in: publico
As associações de deficientes querem mais autonomia na formação, escolha e contratação dos futuros assistentes pessoais, uma nova profissão que está para nascer.
Os primeiros cursos de assistentes pessoais para deficientes terão um total de 3750 horas de formação e serão ministrados por formadores habilitados escolhidos pela União das Misericórdias Portuguesas (UMP) — a entidade promotora. As explicações são dadas pelo Ministério da Solidariedade, Emprego e Segurança Social, em resposta ao PÚBLICO. A "definição do perfil" desta nova figura é algo que está ainda em construção. “O projecto-piloto constituirá um contributo importante.”
O anúncio de que vão avançar os primeiros projectos-piloto de formação de assistentes pessoais para pessoas com deficiência — uma nova profissão, nas palavras do ministério de Mota Soares — foi feito pelo Governo na terça-feira, em comunicado. Mas logo no dia seguinte começaram a ouvir-se críticas.
A Associação Portuguesa de Deficientes (APD) e o Movimento dos (D)eficientes Indignados (MDI) contestam alguns aspectos da forma como está a ser concebido o papel do assistente pessoal. “Assistentes pessoais são pessoas que o deficiente contrata, treina, gere o tempo deles. Aqui, é o Estado que forma, que escolhe e que encaminha os assistentes pessoais para as pessoas com deficiência”, criticou Ana Sezudo, que dirige a APD.
Já o MDI defende que quem deve treinar os assistentes são os deficientes que os vierem a contratar, tal como acontece noutros países. Mais: a pessoa com deficiência deve receber uma verba do Estado para pagar ao assistente que contrata, em vez de ser o Estado a escolher e a pagar ao assistente.
"Um assistente pessoal substitui as pernas e os braços de uma pessoa que não os tem. Se a pessoa com deficiência não consegue tomar banho, o assistente ajuda-a. Se não consegue levantar-se, ajuda-a", exemplificou Jorge Falcato, do MDI. "O sr. ministro não gostaria que lhe destinassem uma pessoa para o ajudar em tarefas tão íntimas como fazer a sua higiene pessoal, que não fosse escolhida por ele, que ainda lhe determinasse os horários de levantar da cama, lavar, comer, etc...", acrescentou o MDI em comunicado.
Sobre a questão da remuneração dos assistentes, o ministério diz apenas que a modalidade de pagamento ainda terá de ser debatida entre os parceiros.
Quanto ao conceito em si, explica por escrito: “O programa de formação [dos assistentes pessoais] prevê na sua metodologia a aplicação de técnicas diversificadas, promoção de actividades e trabalhos em grupo, de sessões de análise, de discussão de temas e simulações, para assegurar um equilíbrio entre conceitos teóricos, modelos enquadradores e a respectiva aplicação prática.”
E garante: a UMP conta com a indicação de alguns formadores que sejam sugeridos por parte de entidades como a APD.
"Assim, o projecto-piloto constituirá um contributo importante no processo em curso de definição do perfil da figura do assistente pessoal e correspondente formalização da profissão, bem como no desenho dos modelos de gestão que determinem a modalidade mais viável e sustentável em termos da concepção social e económica do serviço de Assistência Pessoal", remata.
sábado, 27 de setembro de 2014
TRANSIÇÃO PARA A VIDA ATIVA DE ALUNOS COM NECESSIDADES EDUCATIVAS ESPECIAIS
No âmbito da tese de doutoramento subordinada ao tema “O processo de transição para a vida adulta dos alunos com necessidades educativas especiais (NEE): Percursos de formação no sistema educativo português”, pretende-se realizar um levantamento de informações com professores e técnicos e monitores de Portugal Continental e Regiões Autónomas.O objetivo é tentar compreender quais são as suas opiniões acerca das respostas existentes nas escolas/instituições, nomeadamente no que diz respeito às políticas a adotar no âmbito do processo de transição destes jovens para a vida ativa. Assim neste sentido pedimos a sua colaboração para responder a TODAS as questões deste questionário.
Obrigada pela colaboração!
TRANSIÇÃO PARA A VIDA ATIVA DE ALUNOS COM NECESSIDADES EDUCATIVAS ESPECIAIS
Obrigada pela colaboração!
TRANSIÇÃO PARA A VIDA ATIVA DE ALUNOS COM NECESSIDADES EDUCATIVAS ESPECIAIS
quinta-feira, 25 de setembro de 2014
"Ver pela Arte" no Dia Mundial da Música
No dia 1 de outubro, Dia Mundial da Música, às 18h00 terá lugar uma atividade aberta na Escola de Música de Nossa Senhora do Cabo para que os alunos possam ter mais informação sobre o projeto VER PELA ARTE; poderão nesse dia ter contacto com os diversos instrumentos musicais e oportunidade de experimentar as várias componentes da formação proposta. Para participar nesta atividade aberta, os interessados devem manifestar-se até ao dia 26 de setembro.
Para mais informações/manifestação de interesse:
até ao dia 26 de setembro:
Contactar o Centro Nacional de Cultura:
Telefone: 21 346 67 22
Teresa Tamen ou Conceição Reis Gomes
Contactar o Centro Nacional de Cultura:
Telefone: 21 346 67 22
Teresa Tamen ou Conceição Reis Gomes
fonte: ACAPO
Desenvolvido programa no Japão para imprimir mapas 3D para invisuais
As autoridades cartográficas do Japão anunciaram a criação de um 'software' que permitirá fazer o 'download' de dados da Internet e produzir, com uma impressora 3D, mapas para invisuais.
A Autoridade de Informação Geoespacial (GSI), sob alçada do Ministério dos Transportes e Infraestruturas, trabalhará na fase de desenvolvimento com especialistas de diversas áreas para que estradas, vias pedonais ou de caminho-de-ferro possam ficar bem diferenciadas no produto final, informa hoje na sua página 'online' o jornal Asahi.
Os dados do mesmo programa vão permitir imprimir as vias em relevo com uma altura de um milímetro para que possam ser facilmente detetadas através do toque.
in Correio da Manhã
in Correio da Manhã
O GRILO DA LAREIRA
Foi a chaleira que começou. Não me contem o que disse a senhora Peerybingle. Muito melhor sei eu o que se passou realmente. Ela que repita até o fim da vida que não sabe qual dos dois começou, que eu replicarei sempre: foi a chaleira. E devo saber o que estou afirmando, não acham? Foi a chaleira que começou uns bons cinco minutos, pelo pequeno relógio holandês de face lustrosa, antes que o grilo contasse pela primeira vez.
Pois não tinha o relógio acabado de dar as horas, e o convulsivo segadorzinho de feno, armado de foice e a pular da direita para a esquerda, diante do palácio mourisco, não havia ceifado um acre de grama imaginária, quando o grilo se manifestou?
Quem é que não sabe que nunca afirmo as coisas com facilidade? Jamais ousaria opor a minha opinião à da senhora Peerybingle, se não tivesse certeza absoluta. Nada me faria proceder assim.
Mas aqui, trata-se de um fato. E o fato manda se diga que a chaleira começou pelo menos cinco minutos antes que o grilo desse o primeiro sinal de vida. Contradigam-me, e eu direi dez.
Deixem-me contar como sucedeu, Tê-lo-ia feito logo, se não fosse essa pequena consideração. Se a gente conta uma história, deve, evidentemente, contá-la desde o princípio. E como é possível, sem começar pela chaleira?
Até parece que houve entre esta e o grilo uma corrida.
[...]
Caleb Plummer e sua filha cega viviam sozinhos — Deus que abençoe, e os meus leitores também, os livros de histórias, porque, afinal, sempre nos contam alguma coisa! — Caleb Plummer e sua filha viviam sozinhos num casebre de madeira que não passava de simples espinha no nariz saliente e rubro da moradia de Gruff e Tackleton, a mais imponente da rua. Uma ou duas marteladas teriam sido suficientes para por abaixo o abrigo de Caleb cujos destroços nem dessem talvez para encher uma carroça.
Se, numa incursão, alguém fizesse ao casebre de Caleb a honra de poupá-lo, seria, sem dúvida, para recomendar a sua imediata demolição como melhoramento dos mais importantes. Grudava-se ele à moradia de Gruff e Tackleton, como os crustáceos aos cascos dos navios, os caracóis às portas, os cogumelos às arvores. Mas era o germe que havia dado origem ao tronco de Gruff e Tackleton; e sob o seu teto o penúltimo Gruff fabricara, em pequena quantidade, brinquedos para uma geração de meninos e meninas, já idosos agora, os quais, após com eles se divertirem até não poder mais, procuravam o sono reparador.
Disse que Caleb e sua filha cega ali viviam. Deveria ter dito, porém, que Caleb é que ali vivia, pois a ceguinha vivia alhures, num lar encantado, onde a escassez e a penúria não existiam, e a dor jamais entrava. Caleb não era feiticeiro, mas a única magia que ainda nos resta, a do amor devotado e imorredouro, a natureza fora companheira dos seus esforços, e a ele é que se deviam todas as maravilhas.
Berta não sabia que as paredes estavam cheias de manchas, que o reboco se desfazia cá e lá, que grandes brechas se alargavam de dia para dia, que as vigas do telhado, apodrecidas se curvavam.
Não sabia que o ferro ia sendo carcomido, que a madeira ia sendo destruída pelo tempo, que o papel se descolava, que se ia alterando, enfim, a própria conformação do casebre. Não sabia que sobre a mesa se alinhavavam horrorosas formas de porcelana, que a tristeza e o desalento reinavam por toda parte, que, aos poucos, os cabelos de seu pai iam embranquecendo diante de dois olhos que nada viam. Não sabia que tinham um patrão frio, exigente, desumano. Não sabia, numa palavra, que Tackleton era Tackleton. Imaginava-o um excêntrico que gostava de divertir-se com eles e que, se bem fosse um verdadeiro anjo de guarda, desdenhava ouvir qualquer palavra de agradecimento.
E isso tudo era obra de Caleb! Ele também possuía um grilo na lareira; e ouvindo, tristemente, o seu canto, quanto Berta, órfã, era bem criança, havia sido inspirado a transformar a grande desgraça de sua filha numa benção, e fazê-la viver feliz com tão parcos meios, Os grilos são poderosos espíritos, todos eles, muito embora a gente não o saiba (o que sucede com frequência), e não há no mundo invisível vozes mais gentis e leais que só dão os mais ternos conselhos.
Caleb e Berta encontravam-se na salinha de trabalho que também lhes servia de sala de estar. Que lugar esquisito! Havia casas terminadas e não terminadas para bonecas de todos os tamanhos. Casas suburbanas para bonecas de meios moderados, um quarto e cozinha para bonecas de classes inferiores, belíssimas casas centrais para bonecas de alta sociedade. Algumas eram mobiliadas de acordo com orçamentos que levavam em conta as posses das bonecas; outras podiam ser decoradas da maneira mais luxuosa, a uma simples ordem, com o auxílio de prateleiras cheias de mesas, sofás, cadeiras, camas e almofadas. A nobreza, a burguesia, o público em geral, a quem se destinavam as moradias, jazia cá e lá, em cestos, olhando sem cessar para o teto; mas na indicação da sua classe social, e na classificação dos seus respectivos postos (lamentavelmente difícil na vida real, segundo mostra a experiência), os fabricantes haviam em muito superado a natureza, frequentemente maligna e perversa, pois, não se limitando apenas a sinais arbitrários como o cetim, o algodão e os farrapos, tinham acrescentado notáveis diferenças físicas que eliminavam qualquer erro. Assim, por exemplo, a dama da alta sociedade possuía membros de cera perfeitamente simétricos; mas isso era só para ela e as suas iguais. Passavam a ser de couro os da categoria imediata, e de pano grosseiro os da seguinte. Quanto à gente comum, trazia, no lugar de braços e pernas, simples fósforos, e era imediatamente colocada na esfera que lhe cabia, longe de qualquer possibilidade de sair dela.
Viam-se outras amostras da habilidade de Caleb; além das bonecas, arcas de Noé nas quais, posso assegurar aos meus leitores, se apinhavam aves e animais, embora pudessem ser postos de qualquer jeito no telhado, e até comprimidos no menor dos espaços. Por uma ousadia só explicável pela imaginação, a maioria dessas arcas tinha aldravas nas portas, apêndices incoerentes talvez, que sugeriam visitantes matutinos e carteiros, mas que davam ao exterior do brinquedo um aspecto mais do que atraente. Havia dúzias de melancólicas carrocinhas que, movendo-se, executavam músicas dolentes, numerosos violinos, tambores e outros instrumentos de tortura, canhões, escudos, espadas, lanças e espingardas; pequeninos acrobatas de calções vermelhos, vencendo incessantemente elevados obstáculos de fita vermelha, e caindo, de cabeça para baixo, no outro lado; inúmeros anciãos de aparência respeitável, para não dizermos venerável, voando doidamente por cima de varetas horizontais atravessadas, de propósito, nas portas das suas casas; animais de toda espécie, sobretudo cavalos de todas as raças, desde o simples cilindro pintado, sobre quatro pedacinhos de madeira e tendo por crina uns simples pelinhos, até o esplêndido corcel de balanço, todo cheio de si.
Assim como seria difícil contar as dúzias e dúzias de figuras grotescas sempre prontas a cometer os maiores desatinos a uma simples volta de manivela, assim também não teria sido fácil mencionar loucura, vício ou fraqueza humana que não dispusesse do seu tipo, imediato ou remoto, na sala de trabalho de Caleb Plummer. Exageros, porém, não existiam, pois com poucas cordas homens e mulheres praticavam muito mais loucuras que as de qualquer brinquedo.
No meio de todos esses objetos é que Caleb e Berta trabalhavam, a ceguinha costurando vestidos de bonecas, e Caleb pintando e lustrando a fachada de uma rica mansão.
O cuidado impresso nas feições de Caleb, e sua maneira absorta e sonhadora, própria de um alquimista ou estudante de abstrusidades, formavam, à primeira vista, estanho contraste com a sua ocupação e as trivialidades que o cercavam. Mas as coisas triviais, inventada e feitas para se ganhar o pão de todos os dias, tornam-se sérias, seríssimas. E a não ser tal consideração, não estou absolutamente em condições de dizer que, se Caleb houvesse sido lorde-camareiro, membro do parlamento, advogado, ou mesmo um grande especulador, teria lidado com os seus brinquedos um tantinho assim menos fantasiosamente, ao passo que duvido muito tivessem estes sido tão inocentes.
— Então, papai, o senhor ontem, apesar da chuva, saiu com o seu belo casaco, hein? Perguntou Berta.
— Com o meu belo casaco, respondeu Caleb, olhando para uma corda esticada donde pendia para secar o seu podre abrigo feito de sacos velhos.
— Como estou contente porque o senhor o comprou!
— E de um ótimo alfaiate, ainda por cima, retrucou Caleb. Um alfaiate da moda. Acho que é bom demais para mim.
A ceguinha, interrompendo o trabalho, riu com alegria.
— Bom demais, meu pai? Que pode haver bom demais para o senhor?
— Envergonho-me de usá-lo, continuou Caleb, observando o efeito das suas palavras no rosto iluminado da filha, envergonho-me. Quando ouço a molecada dizer atrás de mim “Olá, vejam só que elegância!” nem sei o que fazer. E o mendigo, então, que não queria deixar-me em paz, ontem?
Quando lhe afirmei que não passava de um homem comum, protestou: “Ah, não, meu senhor! Não diga isso!”. Aí é que me senti realmente envergonhado, e percebi que não tinha o direito de usar um casaco tão bonito.
Que alegria a da pobre ceguinha!
— Vejo-o, meu pai, disse ela, entrelaçando as mãos, tão bem como se tivesse a vista que nunca me faz fala quando estou com o senhor. Um casaco azul...
— Azul claro, corrigiu Caleb.
— Sim, sim, azul claro! Exclamou Berta, levantando o rosto. A cor do céu. O senhor já me disse que o céu é azul! Um casaco azul claro...
— Um pouquinho folgado, sugeriu Caleb.
— Um pouquinho folgado! Repetiu a ceguinha, rindo. E nele meu pai, com os seus olhos alegres, a face sorridente, o passo firme e os cabelos escuros, tão jovem e tão simpático!
— Vamos, vamos, Berta, interrompeu-a Caleb, assim, acabo convencido.
— E eu acho que o senhor já está, gritou ela. Conheço-o, meu pai! Ah, ah, ah! Descobri, está vendo?
Que diferença entre o Caleb imaginado por Berta, e o Caleb sentado naquela salinha! A pobre ceguinha tinha razão em supô-lo homem de passo firme. Por anos e anos, Caleb jamais havia cruzado o limiar da porta a não ser com o passo que convinha aos ouvidos de sua filha e embora, a maioria da vezes, trouxesse o coração amargurado, nunca se esquecia do passo que tornava o dela tão alegre e confiante!
Só Deus sabe, mas eu por mim penso que a esquisitice de modos de Caleb provinha em parte do fato de, por amor à filha, haver-se transformado a si próprio e a tudo quanto o rodeava. Como podia deixar de ser esquisito, após de esforçar, durante tantos anos, por destruir a sua própria personalidade e a de todos os objetos que com ela tinham alguma relação?
— Pronto! Exclamou Caleb, afastando-se um pouco para melhor julgar o seu trabalho. Está tão parecido à realidade que com ela de confunde. Que pena que a fachada se abra de uma vez só! Se houvesse uma escada e portas nos quartos! Mas aí é que está o defeito da minha profissão: ando sempre a me iludir.
- Por que está falando tão baixinho, assim, meu pai. Sente-se cansado?
— Cansado? Repetiu Caleb, com uma grande explosão de entusiasmo. Nada poderia cansar-me, Berta! Nunca estive cansado. Por que me faz essa pergunta?
Para dar maior força às suas palavras, imitou involuntariamente duas figura que se espreguiçavam e bocejavam numa estante, como que a representar eterno cansaço da cintura para cima. E começou a cantarolar uma canção em honra a Baco e a uma taça brilhante, com voz de quem pouco se importa, o que fazia o seu rosto mil vezes mais magro e abatido do que nunca.
— Cantando, hein, estranhou Tackleton, pondo a cabeça pelo vão da porta. Vá lá! Eu é que não sei cantar.
Não havia perigo que alguém o julgasse capaz de tal coisa. O seu rosto não denotava jeito algum de quem pode cantar.
— Não sei cantar, afirmou Tackleton, e gosto que você saiba. Mas espero que saiba trabalhar também. Duvido, contudo, que sobre tempo para ambas as coisas, não acha?
— Se você pudesse ver, Berta, como ele está piscando para mim! Murmurou Caleb. Que homem para brincar! Se você não o conhecesse, diria que está falando sério, não diria?
A ceguinha sorriu, com um sinal de assentimento.
— A ave que sabe cantar, mas não quer, deve ser obrigada a cantar, assim dizem, resmungou Tackleton. Mas que dizer da coruja que não sabe cantar, que não deve cantar, e quer? Há alguma coisa que a gente possa obrigá-la a fazer?
— Como está piscando! Murmurou Caleb para sua filha. Que coisa interessante!
— Sempre alegre e despreocupado conosco! Exclamou Berta.
— Ah, você está aí? Disse Tackleton. Pobre tolinha!
Tinha certeza de que Berta era tola, e fundava a sua certeza, não sei se conscientemente ou não, no fato de ela o apreciar bastante.
— E então, já que está aí, como vai? Perguntou-lhe Tackleton, num resmungo.
— Bem, muito bem, e feliz como o senhor quer que seu seja, feliz como o seria o mundo todo, se o senhor pudesse!
— Pobre tolinha! Murmurou Tackleton para si. Nem um restinho de razão, nem um restinho!
Berta, pegando-lhe a mão, beijou-a, segurou-a por instantes entre as suas e, antes de a largar, nela encostou ternamente a face. Havia naquilo tão indizível afeto e tão fervorosa gratidão que o próprio Tackleton, num resmungo mais suave que os habituais, perguntou:
— Mas que é isso, menina?
— Coloquei-a ao lado do meu travesseiro quando fui dormir ontem de noite, e lembrei-me dela nos meus sonhos. Quando o dia despontou, e o esplêndido sol vermelho... sol vermelho, não é, papai?
— Vermelho ao romper do dia e ao cair da noite, Berta, disse o pobre Caleb, olhando dolorosamente para o chefe.
— E o sol se ergueu, e a fúlgida luz contra a qual receio bater, quando caminho, entrou no quarto, voltei a árvore para ela, agradeci aos céus fazerem coisas tão lindas, e abençoei o senhor por mandálas a mim!
— Loucura da boa! Pensou Tackleton. Daqui a pouco chegaremos à camisa de força... Vamos indo bem!
Caleb, torcendo as mãos, ficou com os olhos perdidos na distância, enquanto a filha falava, como que realmente duvidando (e eu acho que estava) de que Tackleton havia feito alguma coisa para merecer aqueles agradecimentos. Se gozasse de inteira liberdade, naquele momento, e lhe ordenassem, sob pena de morte, que lhe desse um safanão ao fabricante de brinquedos, ou caísse aos seus pés, reconhecendo todas as suas qualidade, creio teriam sido iguais as probabilidades, creio teriam sido iguais as probabilidades de ele fazer uma coisa ou outra. Contudo, bem sabia que, com as suas próprias mãos, havia trazido para a querida ceguinha a pequena roseira, e com que cuidado!
Com os seus próprios lábios é que forjara a inocente mentira que serviria para que ela nunca suspeitasse, nunca, toda a sua abnegação, todo o seu sacrifício, para vê-la cada vez mais feliz.
— Berta, disse Tackleton, assumindo, por um instante, um tom cordial. Venha cá.
— Com todo o prazer, e sem que ninguém me ajude!
— Posso contar-lhe um segredo?
— Depende do senhor, respondeu ela, ansiosamente.
Que brilho havia no seu rosto, que esplendor na sua cabecinha atenta!
— Hoje é o dia em que — como se chama mesmo aquela criança mimada? — Hoje é o dia em que esposa de João Peerybingle vem visitá-la, e fazer o seu piquenique aqui, não é? Perguntou ele, com forte expressão de desagrado.
— Sim, é hoje.
— Eu sabia! Pois bem, gostaria de participar da festinha.
— Está ouvindo, meu pai? Gritou a ceguinha, extática.
— Sim, sim, estou ouvindo, murmurou Caleb por entre os dentes, com o olhar fixo de um sonâmbulo. Mas não acredito. Deve ser uma das minhas mentiras, sem dúvida.
— Você compreende, eu... eu quero que os Peerybingles entrem um pouco mais em contato com May Fielding, disse Tackleton. Vou casar-me com May.
— Vai casar-se!
— É tão tola esta moça, rosnou Tackleton, que eu tinha certeza de que não me compreenderia. Sim, Berta, vou casar-me! Igreja, sacerdote, ajudante, carruagem, sinos, almoço, bolo de noiva, doces e todas as outras bobagens. É um casamento, compreende? Um casamento. Não sabe o que é um casamento?
— Sei, replicou a ceguinha, com gentileza. Sei!
— Sabe? Estranhou Tackleton. Por essa não esperava eu. Pois bem! É por isso que quero participar da festinha, e trazer May e sua mãe. Mandarei para cá uma perna fria de carneiro e outras guloseimas. Concorda?
— Claro!
E Berta, de cabeça inclinada e mãos entrelaçadas, pôs-se a pensar.
— Não sei se devo confiar em você, disse Tackleton baixinho, olhando para ela. Já parece haverse esquecido de tudo. Caleb!
— Acho que posso dizer que estou aqui, pensou Caleb. Pronto, senhor Tackleton!
— Cuide de que ela não se esqueça.
— Ela nunca se esquece, retrucou Caleb. É uma das poucas coisas que não sabe fazer.
— Todo pai é coruja, observou o fabricante de brinquedos, encolhendo os ombros. Pobre diabo!
Assim desabafando com enorme desprezo, Gruff e Tackleton retirou-se.
Berta continuou no lugar em que ele a havia deixado, perdida na meditação. Fora-se-lhe do rosto toda a alegria. Por três ou quatro vezes sacudiu a cabeça, como que lamentando uma lembrança ou perda, mas as suas penosas reflexões não se transformaram em palavras.
Só depois de se haver Caleb ocupado por algum tempo em prender uma parelha de cavalos a uma carruagem pelo processo sumário de pregar os arreios às partes vivas dos animais, foi que ela, aproximando-se, sentou-se perto do pai, e disse-lhe:
— Sinto-me sozinha na escuridão, meu pai. Quero os seus olhos, os seus bons e pacientes olhos.
— Aqui estão, respondeu Caleb, sempre prontos. Mais que meus são seus, Berta, a qualquer hora. Que quer que os seus olhos façam?
[...]
O Grilo na Lareira publicado separadamente em 1845 e juntamente com outras 4 histórias de Natal em 1851, foi o mais popular dosChristmas Books de Dickens, escritos tanto para sustentar a sua enorme família como para gerar a simpatia e a caridade dos leitores, através de personagens pobres, que sofrem e/ou são portadoras de alguma deficiência.
Este retrato ficcional é semelhante à descrição - que Dickens faz em "American Notes" (1842) - de Laura Bridgman, a menina surda e cega, que ele conheceu numa visita à «Perkins Institution for the Blind» em Boston. O pathos do amor de Bertha Plummer por Tackleton parte da suposição de que as mulheres cegas não se casam. Na verdade, a não-ficção da época documenta tanto o facto de que as mulheres cegas efectivamente se casam como o grau de ansiedade da sociedade vitoriana sobre a transmissão hereditária das deficiências. Estes receios tornavam emocionante colocar as personagens de mulheres cegas em situação de namoro e ao mesmo tempo imperativo impedi-las de concretizar a união.
A representação feita por Dickens de Bertha Plummer é típica dos estereótipos sobre cegueira e feminilidade que persistem até ao século XX. O facto da cegueira de Bertha se apresentar associada a um certo embotamento cognitivo é um exemplo do fenómeno sociológico do "spread", em que, sem provas, se assume que uma deficiência leva ao comprometimento de outras funções físicas ou mentais. in Literature, Arts & Medicine
Җ
excerto de
O Grilo da Lareira
título original: The Cricket on the Hearth (1845)
Charles Dickens
1.ª edição (e-book)
Russell Editores, 2013
O Grilo da Lareira
título original: The Cricket on the Hearth (1845)
Charles Dickens
1.ª edição (e-book)
Russell Editores, 2013
Integrar a Diferença: caminhos para a inclusão profissional de pessoas com deficiência e incapacidades
10 Outubro | 11h00 às 13h00
Que desafios se colocam às empresas na hora de integrar um colaborador com deficiência ou incapacidade? Que apoios existem para que a integração tenha sucesso?
Para responder a estas questões contaremos com a participação de quem contrata, de quem acompanha o processo de integração e ainda de quem informa sobre apoios definidos na legislação portuguesa.
Seleção e integração de pessoas com deficiência
O papel do técnico de acompanhamento (Dra. Sandra Pinho, Psicóloga Clínica do CADIn)
A experiência do Sport Lisboa e Benfica (Dra. Luísa Ramos, Diretora de Recursos Humanos do Sport Lisboa e Benfica)
A experiência da Sendit (Dra. HelenaFerreira, Sendit)
Enquadramento e apoios à contratação de pessoas com deficiência
Segurança Social (Dra. Inês Arruda, Advogada da Vasconcelos Arruda & Associados)
Fiscalidade (Dra. Joana Cunha d’Almeida, Advogada Especialista na área Fiscal)
A experiência do Sport Lisboa e Benfica (Dra. Luísa Ramos, Diretora de Recursos Humanos do Sport Lisboa e Benfica)
A experiência da Sendit (Dra. HelenaFerreira, Sendit)
Enquadramento e apoios à contratação de pessoas com deficiência
Segurança Social (Dra. Inês Arruda, Advogada da Vasconcelos Arruda & Associados)
Fiscalidade (Dra. Joana Cunha d’Almeida, Advogada Especialista na área Fiscal)
Os workshops são abertos ao público do Greenfest.
Localização | Centro de Congressos do Estoril , Avenida Clotilde, Estoril | www.greenfest.pt
Mais informações | congressos@cadin.net
Subscrever:
Mensagens (Atom)
