quarta-feira, 18 de junho de 2014

Cientistas portugueses melhoram o uso de smartphones para os cegos

in: publico

O alfabeto baseado numa malha de seis pontos, o Braille, inventado pelo francês Louis Braille em 1824, é a porta de entrada dos cegos para a literacia e o mundo do trabalho. A malha tem dois pontos horizontais por três verticais. Todas as letras do alfabeto têm uma tradução em pontos na malha do Braille. Por exemplo, o “a” é representado por um único ponto em cima do lado esquerdo. No papel, graças ao relevo, as palavras são lidas pelos dedos e escritas com máquinas próprias. Mas nos smartphones e tablets, com visores táteis, ainda se está a aperfeiçoar uma forma de os cegos os usarem. Uma equipa internacional com portugueses está a desenvolver um corretor ortográfico e um aparelho para ajudar à escrita do Braille nestes aparelhos.

“O Braille continua a ser vital para os cegos, tem um grande impacto nas suas vidas”, diz (...) Hugo Nicolau, um dos autores do projeto, a trabalhar como pós-doutorado no Instituto de Tecnologia de Rochester, em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Cientistas do Departamento de Informática da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e do Instituto Superior Técnico também participaram neste trabalho, coordenado por Vicki Hanson, da Universidade de Dundee, na Escócia.

“Queremos trazer o Braille para as novas tecnologias”, diz. Segundo o investigador de 28 anos, apenas 10% das crianças cegas aprendem Braille nos EUA. Um estudo de 1998 mostrava que 77% dos cegos que não aprendem este alfabeto estão desempregados, enquanto na população que aprendeu esta percentagem é de 44%. Em Portugal, existem cerca de 130 mil cegos.

Nos smartphones há programas de voz que leem o que está nos ecrãs. Mas escrever Braille nestes aparelhos é mais complexo. Tal como as máquinas de escrever Braille, nos programas para a sua escrita usa-se o dedo indicador, o médio e anelar de cada mão. Cada um dos seis dedos funciona como um dos pontos da matriz do Braille. O toque só do dedo indicador da mão esquerda é o equivalente, na malha, ao ponto de cima do lado esquerdo, ou seja, a um “a”.

O corretor ortográfico B# desenvolvido por Hugo Nicolau e a equipa é um passo em frente em relação a um corretor normal que analisa palavras e, se a palavra não está no dicionário, corrige-a. Mas o B# tem em conta os símbolos do Braille. “A nossa solução oferece o dobro de correções acertadas”, diz Hugo Nicolau. “Um código Braille que não faça sentido, e que seria por isso descartado, pode ainda ser utilizado para encontrar acordes (combinação de dedos) que sejam parecidos [com o que foi escrito], e assim encontrar a palavra que o utilizador desejava inserir.”

O sistema consegue sugerir em 72% dos casos a palavra correta. Segundo o investigador, é difícil prever a palavra certa para 100% dos casos. Mesmo nos casos em que há apenas um erro numa das letras da palavra, as alternativas podem ser muitas. A palavra mal escrita “brla” pode ser “bela”, “bola”, “bala”, “borla” ou “burla”. “Estamos a criar modelos de linguagem representativos da língua e que possam dar com maior certeza a palavra pretendida.”

Já o objetivo do HoliBraille é completamente diferente. Este objeto funciona como uma caixa ou capa que se anexa à parte de trás do smartphone. De cada extremidade desta caixa saem três “atuadores” onde se apoiam os dedos usados na escrita de Braille e que vibram quando se escreve. A ligação entre a caixa e o telemóvel faz-se por Bluetooth. De uma forma imediata, o HoliBraille sabe quais os dedos que o telemóvel reconheceu enquanto se escreve Braille e dá essa informação ao utilizador através da vibração (ou ausência dela) de cada um dos “atuadores”.

“O problema dos ecrãs táteis é que não tem retorno tátil acerca dos elementos que estão a ser ativados. O HoliBraille permite que os utilizadores cegos sintam nos dedos qual a letra que está a ser inserida e, assim, evitar erros de escrita.”

Esta tecnologia poderá ajudar as pessoas que estão a aprender Braille. Investigadores na Universidade de Lisboa estão a criar jogos para a aprendizagem deste alfabeto. “O sistema mostra ao utilizador como escrever a letra, vibrando os dedos correspondentes. Após a letra ter sido ensinada, pede ao utilizador que a insira”, exemplifica o cientista.

Para testar estes desenvolvimentos, a equipa trabalha com a Fundação Raquel e Martin Sain (FRMS), instituição portuguesa, que faz formação de cegos. “As opiniões que nos foram dadas [pela FRMS] são essenciais para criar tecnologias úteis e usáveis”, diz Hugo Nicolau.

O HoliBraille ainda está em fase de protótipo e construí-lo custa entre 80 e 100 euros. Tanto este objeto como o B# não têm patentes. A filosofia do grupo é que as suas criações sejam abertas a todos, frisa Hugo Nicolau: “Pretendemos criar soluções que sejam aplicadas rapidamente. Estamos abertos a novas colaborações.”

Fifa vai ajudar a implantar projetos de audiodescrição

A Fifa vai intermediar as negociações para que as transmissões áudiodescritivas possam seguir fazendo parte do dia a dia dos estádios brasileiros após a Copa do Mundo. “Muita gente passou a pensar em vir aos estádios depois que soube do projeto”, afirmou Anderson Dias, presidente da Urece, uma ONG voltada para projetos especiais para cegos e pessoas com baixa visão. Para começar, os equipamentos que está sendo usados nas transmissões no Rio, Belo Horizonte, São Paulo e Brasília vão ficar no país. “Se for para ficar trancado em uma sala, vamos doá-los às ONGs”, disse Federico Addiechi, responsável da Fifa pelo projeto.
Federico contou o quanto foi difícil fazer o projeto andar. “Conseguir uma frequência de rádio para as transmissões foi quase impossível”, lembrou, dizendo que as licenças saíram quase na última hora. “E só saíram porque era para a Copa do Mundo”, lembrou. Anderson Dias já foi atleta do futebol paraolímpico brasileiro e lembra que nunca houve vontade no país para que um projeto desse tipo fosse adiante. “Queria que o governo se interesse a levar o projeto adiante”, afirmou.
Por enquanto, só quem compra ingresso e vai ao estádio tem acesso ao serviço, mas Anderson espera que alguma rádio, no futuro, possa se interessar em tocar o projeto e fazer com que pessoas com deficiência visual possam ouvir aos jogos de futebol ou outras transmissões esportivas de suas casas. “O equipamento que a Fifa disponibiliza só permite a emissão por aqui. Para ampliar seria necessário outra autorização da Anatel, mais antenas. Vamos tentar negociar para que isso seja realidade um dia”, afirmou Federico, que vai intermediar negociações com as concessionárias do MaracanãMineirão, Mané Garrincha e Arena São Paulo para que isso seja possível.

A intenção da Fifa é fazer com que o projeto de narração com audiodescrição seja uma realidade também na Copa do Mundo de 2018 na Rússia. “Quando um projeto dá certo, temos que ampliá-lo e leva-lo a outros lugares”, confirmou o dirigente. Joyce Cook, da ONG europeia CAFÉ, que desenvolveu o projeto para a Fifa no Brasil e treinou os 16 voluntários que participam da narração, quer que o modelo se multiplique no país. “Queremos que os que foram treinados, se tornem treinadores de outros interessados”, disse.
Ingressos polêmicos
A Fifa disponibilizou uma cota de cerca de 700 ingressos em média para pessoas com necessidades especiais e muitos desses ingressos ainda não foram vendidos. A entidade afirma que está tentando evitar que os ingressos sejam usados por pessoas sem deficiência. “Temos critérios estabelecidos por experiências internacionais e temos mecanismos para evitar fraudes”, disse Federico Addiechi.
Uma das polêmicas ficou em torno dos ingressos para obesos, já que o Brasil tem uma grande parcela da população acima do peso e que poderia se beneficiar disso para conseguir entradas. “Seguimos as normas da Organização Mundial de Saúde que é de beneficiar a quem IMC acima de 30”, se limitou a dizer Federico. O fato é que para alguns jogos ainda restam entradas para categorias especiais e a Fifa não pensa em transformar essas entradas em ingressos para pessoas sem deficiência. “Achamos que vai vender”, disse.
Para Joyce Cook é triste que pessoas com deficiências ainda não tenham conhecimento de seus direitos. “Isso é triste. É uma Copa do Mundo e queremos que essas pessoas venham e participem”, disse. Federico Addiechi disse que é complicado saber até que ponto se pode ser rígido sem deixar de ser justo. 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

revogação imediata da portaria 275-A/2012

Subscrever : Em defesa da inclusão de todos os alunos com necessidades educativas especiais e/ou deficiência, no sistema educativo português, exigimos a revogação imediata da portaria 275-A/2012.

petição

Relatório Educação Especial

 http://www.slideshare.net/jbarbo00/relatorio-educacao-especial

http://www.slideshare.net/jbarbo00/relatorio-educacao-especial

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Tabagismo interfere na visão e aumenta a probabilidade de doenças que causam cegueira


O tabagismo é considerado fator de risco na incidência e na evolução de uma série de problemas oculares: Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI), catarata, glaucoma, Doença de Graves (causada por distúrbios hormonais da tireoide) e doenças oclusivas venosas e arteriais.

O hábito de fumar aumenta em pelo menos duas vezes o risco de desenvolver Degeneração Macular Relacionada à Idade, que é uma das doenças que mais causam cegueira no mundo. Fumadores têm mais propensão a essa degeneração, pois o cigarro acelera a oxidação do organismo e favorece o acúmulo de substâncias nas camadas mais profundas da retina. Com a diminuição de mecanismos antioxidantes, ocorre a "intoxicação" dessa parte do olho.

Esse problema se desenvolve a partir do envelhecimento na parte da retina chamada mácula, que é diretamente ligada ao sistema nervoso central, onde a visão é processada e são definidas as formas, cores, rostos e leitura. "Toda a retina tem origem no tecido nervoso, suas células não se regeneram nem se multiplicam. Por isso, é importante preservá-las", afirma Dr. Cláudio Dalloul, especialista em retina e vítreo do D'Olhos Hospital Dia de Rio Preto.

Estudos também indicam que o tabagismo pode contribuir para o agravamento do glaucoma. O cigarro isoladamente não causa a doença, mas está associado a um maior risco de piora da patologia. O conjunto de fatores que causam má circulação sanguínea no corpo também podem prejudicar a saúde do nervo óptico, pois, assim como em outras partes do corpo, o nervo óptico recebe nutrientes e oxigênio pelo sistema vascular. “O cigarro não eleva a pressão intraocular, mas pode prejudicar a circulação do nervo óptico. Os efeitos de alterações vasculares na evolução do glaucoma têm sido tema para muitas pesquisas", disse Dr. Kássey Vasconcelos, especialista em glaucoma do D'Olhos Hospital Dia.

O fumo do cigarro também tem efeito irritativo na parte anterior do globo ocular, principalmente na conjuntiva e na córnea. Isso faz com que as pessoas idosas - que produzem menos lágrimas - sejam muito mais sensíveis e alérgicas. O cigarro também piora quadros de síndrome do olho seco, alergias oculares e promove desconforto àqueles que usam lentes de contato.


Portugal vai ter primeira escola de atletismo para pessoas com deficiência

Portugal vai ter em breve a primeira escola de atletismo para pessoas com deficiência, um projeto do atleta paralímpico Jorge Pina, que pretende dar a conhecer a realidade do desporto adaptado e captar novos talentos.

“A escola começará a funcionar em pleno em setembro, no início do ano letivo, mas vamos já começar a ir às escolas apresentar o projeto aos jovens e aos pais”, explicou Jorge Pina, em declarações à agência Lusa.
O atleta, que marcou presença nos Jogos Paralímpicos de Pequim2008 e Londres2012, referiu que o grande objetivo da escola é “dar oportunidade aos jovens com qualquer tipo de deficiência de experimentarem as várias disciplinas do atletismo e de as começarem a praticar”.
Jorge Pina considerou que este projeto é “também uma forma de rejuvenescer o desporto adaptado” e admitiu que “gostaria de abrir o leque a outras modalidades”.
O atleta, que cegou aos 28 anos numa altura em que praticava pugilismo, explicou que a escola servirá também para ajudar a formar futuros professores.
“Além de ser uma escola para pessoas com deficiência também será uma escola para futuros professores, pois temos protocolos com faculdades, para que os futuros professores tenham oportunidade de trabalhar diretamente para o terreno trabalhar com pessoas com deficiência”, disse.
Numa primeira fase a escola vai ter cerca de 70 alunos “referenciados pela Direção Regional de Educação de Lisboa (DREL)”, disse Jorge Pina, garantindo que no futuro “o objetivo é chegar a mais instituições, nomeadamente a centros de reabilitação”.
A escola de atletismo vai funcionar em três polos localizados em Lisboa – Estádio Universitário, INATEL e Pista de Atletismo Municipal Professor Moniz Pereira –, mas Jorge Pina espera “crescer e formar treinadores e técnicos noutras zonas”.
A criação da escola, uma aspiração antiga da Associação Jorge Pina, foi possível devido à parceria com a marca Rexona, que através de uma iniciativa realizada em vários ginásios colocou os portugueses a correrem.
Por cada quilómetro percorrido, nos locais aderentes, a marca doou um euro, tendo em cerca de 15 dias sido conseguidos os 50.000 euros necessários para o arranque.
“Muitos portugueses deram quilómetros para que tudo se tornasse realidade”, afirmou Jorge Pina, lembrando que a escola tem parcerias com o Instituto do Português do Desporto e Juventude e com o Instituto da Nacional para a Reabilitação.
Diário Digital/Lusa

Declaração de Salamanca: 20 anos pela educação para todos


artigo Público

Dia 7 de Junho próximo, faz vinte anos que se iniciou em Salamanca uma Conferência promovida pela UNESCO. Desta conferência saiu uma Declaração que foi subscrita por 92 países – entre os quais Portugal – e mais 25 organizações não-governamentais. Esta Declaração tem uma importância seminal no aprofundamento de uma perspetiva de “educação para todos”.
Antes de 1994, existiam já documentos internacionais que proclamavam o direito de todas as pessoas à Educação. Por exemplo, a Declaração Universal dos Direitos do Homem (DUDH) de 1948, afirma no seu artigo 26º que “Toda a pessoa tem direito à educação. A educação deve ser gratuita pelo menos a correspondente ao ensino elementar fundamental. O ensino elementar é obrigatório (…)”. Na decorrência da DUDH muitas foram as declarações e convenções que confirmaram este direito universal à Educação. Mas então o que há de novo, de original, na Declaração de Salamanca? É, talvez, a forma como este direito deve ser concretizado. Senão vejamos:
Ainda no preâmbulo da Declaração de Salamanca se diz (e vale a pena voltar a ler):“(…) as crianças e jovens com necessidades educativas especiais devem ter acesso às escolas regulares, que a elas se devem adequar através duma pedagogia centrada na criança, capaz de ir ao encontro destas necessidades,(…) as escolas regulares, seguindo esta orientação inclusiva, constituem os meios mais capazes para combater as atitudes discriminatórias, criando comunidades abertas e solidárias ,construindo uma sociedade inclusiva e atingindo a educação para todos; além disso, proporcionam uma educação adequada à maioria das crianças e promovem a eficiência, numa ótima relação custo-qualidade, de todo o sistema educativo.”
Estes dois parágrafos têm um alcance ético e implicações práticas extraordinárias. Quando se afirma que as escolas regulares se devem adequar às necessidades dos alunos, está a traçar-se uma linha divisória muito clara entre uma conceção de educação que está “lá em cima” (e que os alunos têm que “escalar”) e outra conceção em que a escola não está nem em cima nem abaixo dos alunos: está ao seu lado. Está ao lado dos alunos porque os conhece, conhece o seu contexto, conhece os valores que lhe foram transmitidos até então, conhece a forma como o aluno aprende melhor, conhece a forma como ele se relaciona, enfim, conhece o tempo que ele precisa para aprender o que é necessário para ser um cidadão útil e ético. Afirmar numa Declaração Internacional que a escola tem a obrigação – sob pena do seu insucesso como instituição pública – de servir competentemente a todos os alunos, é original e, mais do que isso, é uma referência que devia ser tomada como princípio inspirador de toda a pedagogia que se pratica na escola.
No segundo parágrafo afirma-se que as escolas regulares são os meios mais eficazes de combater as atitudes discriminatórias e de criar comunidades abertas e solidárias (…).  De novo as escolas regulares são convocadas para serem aquilo que por vezes esquecem que são: escola para todos sem qualquer exceção, Escolas Públicas. É certo que existem forças, atitudes e opiniões que querem que a escola pública se esqueça daquilo que deve ser: há normas que encorajam a seleção e a segregação dentro da escola, há opiniões que barram e desencorajam que todos os alunos se possam matricular e ter sucesso na escola da sua comunidade, há professores que acham que não há qualquer alternativa a cumprir o “sacrossanto” currículo (e “daquela” forma), há pais que desconfiam das escolas que são frequentados por alunos pobres ou com deficiências, etc. etc.   
Mas Salamanca aqui está. Vinte anos depois a dizer, a proclamar e a apontar o caminho que é preciso fazer e trilhar para se construírem sociedades abertas e solidárias. E avança com os meios que são necessários para isso: construir antes de mais uma Educação Inclusiva.
Dia 7 de Junho uma associação de professores “Pró-Inclusão” e uma associação de Pais “Pais em Rede” vão realizar às 10h00 no auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian uma sessão comemorativa da Declaração de Salamanca. Uma sessão aberta e inclusiva.
E gostava de deixar aqui uma sugestão a todas as escolas e em particular aos colegas que têm responsabilidade na sua gestão: afixem na entrada da escola um cartaz grande, bonito e bem visível que diga: “O compromisso desta escola é educar os nossos alunos o melhor que todos sejamos capazes”.
Foi isto que nos ensinou a Declaração de Salamanca que esta semana faz vinte anos.
Professor Universitário, Presidente da Pró- Inclusão – Associação Nacional de Docentes de Educação Especial